Ferreira Gullar não viaja de avião, em função disso o poeta se tem deslocado pouco do Rio de Janeiro para fazer palestras ou receber alguns dos prêmios que recebeu por sua obra como o prêmio Jabuti, Prêmio Camões e agora o Prêmio Moacir Scliar de Poesia, do qual Gullar é o vencedor. O “não voar” de Gullar seria motivo alegado pela direção do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul para entrega do prêmio de 150 mil reais a ele conferido na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro no próximo dia 29. Dos 152 concorrentes ao prêmio apenas três nomes nacionais reconhecidos: Adélia Prado, Gullar e Marina Colasanti; dois nomes regionais conhecidos e 147 nomes desconhecidos, provavelmente novos poetas. É curiosa a seleção do livro de poemas de Gullar para receber o Prêmio por se tratar de uma antologia ( ou seja, poemas já publicados) e um dos jurados ter feito a apresentação do livro premiado. A editora do livro vencedor também recebe 30 mil reais, sendo que esta gentilmente patrocinará a festa no Rio de Janeiro, outro fato que causa estranheza, pois não é usual um premiado patrocinar um coquetel de premiação. Um dos poetas que recebeu menção honrosa resolveu recusar a premiação perturbando um pouco o brilho da entrega do prêmio à Gullar pelo nosso governador no dia 29. A impressão que me ficou desse embroglio é que, enquanto Gullar não voa, alguns dos nossos intelectuais da província não correm, voam, como mariposas atrás do brilho efêmero da luz que emana do talento alheio. Seria interessante que Instituto Estadual do Livro em nome da lisura do concurso abrisse os votos de todos os jurados que premiaram Gullar, pois os nomes dos concorrentes e dos jurados podem ser acessados no site do Instituto, mas os votos não.
(fontes- Zero Hora dia 21 de março de 2012- site do Instituto Estadual do Livro)
3/29/2012
11/16/2010
Quando a liberdade é ferida não há remédio que a cure
A prisão de Telma também demonstra o quanto a verdade pode ser alterada quando se quer.
Como disse anteriormente ninguém me mostrou, eu passei no local da performance, pouco antes de fechar a Feira, passamos entre três pessoas ao largo do grupo de pessoas que assistia a poeta Telma Scherer. O argumento usado pela Feira da impossibilidade de passagem de um cadeirante chega a ser terrível pelo mau uso do exemplo.
Os 56 anos alegados pela mesma nota, também não explicam, que esse tempo transcorreu com diversas administrações da Câmara do Livro, ou seja, não acredito que essa antiguidade também dê guarida a esse tipo de atitude e nem mesmo as estatísticas que a Câmara exibe garantem a isenção de responsabilidade nessa questão, pois quando a liberdade é ferida, a estatística, as afirmações de idoneidade são inúteis. E se torna mais grave quando se trata de um evento dito cultural, não apenas livreiro e que utiliza verbas públicas para sua consecução.
A nota publicada pela Feira do Livro que pode ser lida abaixo ou verificada na link
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Geral&newsID=a3108341.xml
Nota da Câmara Rio-Grandense do Livro
A Câmara Rio-Grandense do Livro realiza a Feira do Livro de Porto Alegre há 55 anos sempre preocupada em garantir um evento democrático, aberto e gratuito. As manifestações populares durante a realização da Feira do Livro são comuns e até mesmo já se tornaram uma prática natural em locais onde há grande concentração de pessoas.
A ação da Brigada Militar ocorrida na noite de sexta-feira, foi motivada pela solicitação de visitantes da Feira do Livro que foram impedidos de circular, como por exemplo, mãe e filho cadeirante que não conseguiram prosseguir em um corredor do evento.
Outros fatos decorrentes da manifestação, como a ingestão abusiva e a oferta de bebida alcoólica na via pública, foram relatados por diversas pessoas.
A ação da Brigada Militar foi no sentido de colaborar para a segurança de todos, inclusive da própria manifestante, que foi conduzida até o posto policial da Praça da Alfândega, acompanhada de amigos e outras pessoas que assistiram a abordagem da Brigada Militar.
A autora não foi presa, tendo sido liberada imediatamente após sua identificação, uma vez que não portava documentos e não foi realizada representação contra a mesma.
ZERO HORA
Feira do Livro de Porto Alegre ofende a poesia
No caminho com Maiakovski
De Eduardo Alves da Costa
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
O recente episódio que redundou na prisão violenta da poeta Telma Scherer durante a sua performance na 56 Feira do Livro de Porto Alegre no dia 12 de novembro de 2010, mostra o grau de insanidade a que chegou aqueles que são responsáveis por uma Feira de Livros que se pretende cultural e que revela, finalmente, que de cultura nada desejam além de vender livros e no que se diz cultural não passa de uma quermesse mal animada.
Ninguém me contou, estive presente, por acaso, no ato da prisão de Telma quando um ex-presidente da Feira declarou em alto e bom som : ”-essa mulher tem que ser presa está perturbando as barracas da Feira”.
Na mesma oportunidade os policiais encarregados de prendê-la disseram que iam fazer nela exame de teor alcoólico e exame psiquiátrico num posto de atendimento do INSS.
O constrangimento e a virulência foi tanta que deixou a poeta, sensível, muito assustada, sendo tratada como uma verdadeira criminosa.
As garantias de livre expressão da Constituição foram rasgadas naquele momento, sem levar em consideração a ausência de um mínimo de bom senso dos administradores da Feira que a acusaram da forma que fizeram.
Unindo-se a isso tivemos mais uma demonstração também da grande mídia, quando um dos mais importantes jornais da capital minimizou o incidente, mostrando mais uma vez o jornalismo subserviente que é useiro e vezeiro de praticar.
Não podemos esquecer também os nossos intelectuais que também minimizaram o episódio como se ele não fosse emblemático de um momento que vive a nossa cultura subserviente ao poder econômico e feliz com as migalhas que lhes são atiradas através de um reconhecimento feito de cartas marcadas e jogadas bem ensaiadas para disfarçar o uso de verbas públicas que terminam por caucionar a prisão uma poeta.
Ficar calado a isso é admitir a nossa impotência diante de um acontecimento tão grave que não poderá ser esquecido com facilidade pois, senão como diz poema chegaremos novamente no momento: “que já não podemos fazer mais nada”.
Marco Celso Huffell Viola
1/19/2010
Nossas elites, intelectuais, a mídia e o Estado
Um policial rouba a jaqueta de um ladrão e rouba do ladrão, também, os tênis ainda suados dos pés de um recém-morto pelo ladrão em um local público. Se não houvesse câmaras registrando que o sujeito agonizante não recebeu socorro, pois o policial estava ocupado em roubar o ladrão e não chamou o socorro, o fato passaria desapercebido. E já está esquecido. Aconteceu no mês de outubro de 2009 no Rio de Janeiro.Retornei a ele por que é caso emblemático.
O acontecimento todo é de uma crueldade, de uma ferocidade, desumanidade tão terrível que só pode ser equiparado a um país em guerra e cujos valores estão completamente distorcidos.
A música de Chico Buarque, Chame o Ladrão, hoje, seria perigosa.
Um país mantido por uma elite apática e tão corrupta que não age-reage a nada que não retorne em benesses para si. E essa elite não é apenas a elite política, mas todo o grupo social organizado que tem condições fazer diferença nessa indiferença e brutalidade, como a igreja, as organizações sindicais patronais ou não, entre outras.
O morto?
Coordenador de projetos sociais do grupo AfroReggae Evandro João da Silva (1).
Notícias do Rio de Janeiro, vejo tiros dentro da noite e algumas pessoas que residem na cidade.Dizerem:-Isso é coisa da Globo, não acontece onde estamos.
Notícias do Rio de Janeiro, vejo tiros dentro da noite e algumas pessoas que residem na cidade.Dizerem:-Isso é coisa da Globo, não acontece onde estamos.
-Mentira!
Ou seja, se não acontece na sua janela ou na sua porta não existe.
A apatia é contagiosa.
Dois anos atrás, foi à vez da de uma pessoa ligada a um grande empresário do Sul.
O Jornal Nacional falou dois dias e depois a notícia desapareceu.
Vira notícia quando os crimes possuem repercussão.Quando São Paulo ficou a mercê de uma quadrilha, o fato virou documentário.
Os pequenos crimes, diários, cometidos em todos os níveis, esses não saem no noticiário.
A atitude de o policial roubar o ladrão é reflexo da impunidade, da apatia, da mediocridade organizada e mantida pela preguiça nacional burra e mal intencionada.
A morte foi banalizada pelos apresentadores gritões do jornalismo sensacionalista - imbecil-marrom e do sofisticado casal que aparece bonito e limpinho, toda noite cujo noticiário é tão bonito e limpinho quanto eles, e não possui um editorialista confiável, sério, respeitado.
Dio pai.
Ninguém está a salvo nessa cidade e em nenhum cidade brasileira, nem quem procura melhorar a vida daqueles que nada têm com música, dança, informática ou daqueles que frequentam os mais altos escalões da República.
Só há uma saída e não é o aeroporto e muito menos apagar a luz, a saída é o exílio.
Só há uma saída e não é o aeroporto e muito menos apagar a luz, a saída é o exílio.
E deixar essa terra que sei abençoada por Deus pegar fogo, nas mãos eficientes daqueles que tem capacidade para fazer isso.
Dos indiferentes, dos que lucram milhões com segurança. Porque tanto barulho com o castelo do deputado em Minas? Ele é apenas mais um que soube aproveitar o filão.Quantos castelos desse tipo proliferam pelo país? E não aparecem na mídia, protegidos atrás de um arsenal de seguranças e de muito dinheiro. As vezes um desses castelos é sacrificado para que todos os outros permaneçam sendo desfrutados, dessa vez foi o político mineiro.
Não é ótimo ter escadas rolantes para o Cristo Redentor? Ótimo, até o dia que teremos que pagar pedágio a algum traficante para podermos subir até lá.
Inversões de prioridades.
E quem mantém isso?
Os que viram as costas, os buscam apenas os interesses pessoais ou de seus grupos, e todos os que se disfarçam nas sombras atrás de organizações que sob o pretexto de proteger, integrar, auxiliar, defendem apenas o status quo de seus salários pagos com os impostos mais altos do mundo.
Recomendo novamente o exílio.
Se você possui um tênis qualquer de marca, só poderá usar ele no Uruguai ou Miami.
Se você tem uma jaqueta mais ou menos, poderá usá-la tranquilamente num desses lugares ou ainda Nova Iorque.
Pois saiba que sua vida aqui não vale nada.
E os nossos intelectuais? Que até 1970 discutiam,analisam, pensavam esse país,onde andam?
É difícil dizer quantas vezes, em nossa história, os intelectuais se ajoelharam diante da corte.
E ela continua, firme, poderosa, lotando as repartições públicas de burocratas felizes no tráfico de influência, que precisa ser legalizado, já que é prática, por que não legalizar o lobby? Em vários países é um negócio como qualquer outro. Assim,como está termina sendo sempre mais caro para o contribuinte.
Nelson Werneck Sodré registra o nome de alguns intelectuais adesistas no período do império.
Não se engane,o que se faz hoje também permanece.
É possível sim, citar nomes que muito próximos da mídia e do Estado agem apenas também para manter seus privilégios.
Para aqueles que não querem o caminho do exílio só existe outro caminho, tentar fazer com que esse jogo seja diferente.
1)Fundado em 1993, o Grupo Cultural AfroReggae (GCAR) é uma organização não governamental que oferece atividades socioculturais para jovens moradores de favelas como forma de fortalecer sua auto-estima, contribuir para a construção de sua cidadania e, com isso afastá-los dos caminhos da violência, do narcotráfico e do subemprego.(texto do site)
http://www.afroreggae.org.br/institucional/
http://www.afroreggae.org.br/institucional/
1/06/2010
Não veja o filme, não leia o livro e nem ganhe uma camiseta com um pacotão de pipoca
Ben 10 o "Avatar" e seus clones, inimigos ou em que ele se transforma, não sei
Queime, queime
Por onde começo com essa vida que estamos vivendo?
Mercado de jovens e seus uniformes,que nos fazem "entrar"
Mas você pensa que somos cegos?
Que não conseguimos ver através de todas as suas mentiras?
fragmento da música de The Lostprophets (1)
Nos grandes lançamentos que chegam as novas supertelas de cinema no Brasil, ao assistir o filme, todos os bons micos amestrados podem ganhar um pacote de pipoca, uma camiseta e se tiver alguma coisa escrita sobre o filme você poderá levar para casa.
Walter Benjamin dizia que o cinema deveria encontrar sua própria realidade e a realidade do cinema deveria ser diferente da realidade do dia-a-dia. Quando Benjamin falava sobre isso, o cinema dava seus primeiros passos como uma possível arte e engatinhava como indústria.
E cresceu da década de 30, em diante, exponencialmente até os mega estúdios nos Estados Unidos, matando índios, incendiando aldeias de índios, dizimando índios, matando africanos, indianos, desprezando todo o tipo de selvagem e impondo a visão dos conquistadores bonzinhos. Onde houvesse gente pra matar lá estava o cinema americano junto da chacina.
Agora, o cinema americano, adequado aos novos tempos, nos traz o Afganistão e problemas de consciência nos Leões e Cordeiros, quando Robert Redford, professor politicamente correto, tenta demover dois bons alunos da ideia de partirem para guerra.
Quando eles aparentemente chutam a própria cabeça como em Soldado Anônimo, onde o personagem quase enlouquece por não conseguir disparar um só tiro e afirma que a masturbação é a única atividade que se dedicam com afinco na guerra do Iraque, chega-se naquilo que Benjamin desejava, o cinema criando a sua própria realidade. O rapaz foi pro Iraque e não conseguiu disparar um único tiro?
Chegou a mirar o fuzil na cabeça de um feio iraquiano com seu chapeuzinho rídiculo de militar e foi desautorizado.
Ah!Então, aquilo lá não é guerra? Não se disparam tiros, não morre gente?
Walt Disney estava certo com a sua Fantasia. Lucro sobre lucro.
Estamos dentro de um cinema com câmara rápida, menos de 20 segundos por imagem, que acelerou a fragmentação do fragmento, fragmento de emoções de todo tipo, sangue dá negócio? Vamos fazer escorrer pela tela, bater carros, explosões quanto mais melhor.Vamos banalizar a violência até torná-la normal, o que não é.
Por isso os soldados que norte-americanos no Iraque, no documentário de Michael Moore, dizem que a melhor música que escutam quando entram na guerra é Burn Burn, música para guerrear.
Guerra com trilha sonora e cujo roteiro é escrito em Washington.
E,eles entram de peito aberto ouvindo a música a todo volume, mesmo que a letra diga outra coisa, importa é o som, o fragmento da emoção.
Depois eles não entendem porque os adolescentes começam a dar tiros em quem não simpatizam na escola, na universidade.
Um cinema que viciou o espectador em adrenalina, e em chorar cada vez que vê em Casablanca e escuta o passivo Sam tocar o times goes bay pro querido patrãozinho rememorar o seu passado de homem. E todos no bar, cantam a Marselhesa de peito estufado e eivados de sentimentos patrióticos, bem distantes da batalha.
Bobagem.
E pra rechear os corações e as veias de açúcar, tome algumas canções, alguns embates amororsos, as danças, e nem raramente uma obra significativa.
Tudo em nome da bilheteria e o entretenimento.
Em um filme, que não lembro o nome, havia um diretor de estúdio que discute sobre cinema e diz que a sua fala preferida, em cinema, era o grito do Tarzan.
Tarzan venceu a tudo e a todos com seu grito gravado ao contrário, impôs a cultura da macaca Chita, que só sabe abrir a boca e rir, e aprovar a tudo se ganhar banana.
As avaliações dos filmes, pela "critica" especialiazada em cinema americano começa assim: “foi um fracasso de bilheteria não faturou os 50 (ou 100,ou 200) milhões de dólares esperado na semana do lançamento”.
Um dos parâmetros para a avaliação é o quanto o filme rendeu aos produtores. Toda a criação de um filme dessas grandes bilheterias é uma criação coletiva, não tem um único autor, o diretor é apenas um organizador, perdeu a sua função criativa que o Cahiers du Cinéma dizia existir na década de 60, mesmo com Roland Barthes apontando o Sindicato dos Ladrões como um blefe.
E,caso você não saiba a pipoca faz parte do treinamento para se tornar um mico e aumentar o faturamento. A camiseta também, e também os bonecos e brinquedos gerados pelo filme.
Ainda é possível imaginar o cinema como uma arte? Como tentaram os europeus e os outros cinemas no mundo, incluindo o nosso?
Não creio mais que isso seja mais possível.
Se foi não é mais. Não existem recursos para isso.
A menos é claro que se considere arte um desenho animado, entre outras tantas toneladas de cartoons distribuídos pelo mundo como parte desse sistema industrial, que empurra relógios do Ben 10 para crianças indefesas, camisetas do Ben 10 para crianças ainda incapazes de separar a realidade da fantasia, que empurra bonecas, biscoitos e um monte de lixo para crianças, inserindo-as num sistema de consumo precoce e desprotegidas de alguma legislação que preserve o que elas possuem de melhor.
A reprodutibilidade, dizia Benjamin retira a aura do objeto artístico.
Nisso ele estava certo, a reprodutibilidade também retira o valor.
Ou então, teremos que mudar os parâmetros de avaliação para uma obra de arte, no mercado de arte quanto mais cópias circulam de um peça de arte, mais barata ou desvalorizada ela se torna.
Portanto, tudo que é reproduzível perde o valor na medida que aumenta o seu número de cópias e pode-se acrescentar, audiência.
Assim, podemos concluir que tanto o cinema industrial como a televisão, estão longe de serem e produzirem arte, são produtos de consumo cujo valor artístico é um pastiche da arte verdadeira.
1) Escute: http://vagalume.uol.com.br/lostprophets/burn-burn.html
1/03/2010
Cabeças de bagre
Não sei se usa a expressão “cabeça de bagre” além do Mampituba ou se ela é uma expressão legítima do Rio Grande do Sul. Para quem não sabe, ela é empregada para designar aquelas pessoas de pouca ou nenhuma inteligência ou se a tem, não a usam em proveito próprio e muito menos dos outros. São repetidores incansáveis de idéias, conceitos e preconceitos alheios, e quando se metem em política, é o que se vê na maior parte de nossos políticos, um desastre, um bando de políticos cabeça de bagre.
Agora, com a internet esses cabeciones então, se acharam como distribuidores de mensagens e correntes de saúde,amor, paz, beleza e piadas, quando não distribuem material preparado por outros cabeças de bagre sobre política.
Algumas dessas mensagens traem a sua origem
Chegou na minha caixa postal, recentemente, uma dessas sobre a Dilma Roussef, que é de uma violência tão descarada que parece ter sido realizada por parte desses sistemas que ainda agem nas sombras nesse país, em nome de algum controle social, que estão acima da lei e da ordem, pagos naturalmente com o dinheiro dos impostos, prestando contas apenas aos arapongas de plantão e mais ninguém.
Duvido que, na sequência, os cabeça de bagre que distribuem esse tipo de mensagem saibam realmente o objetivo daquilo, se publicidade contra ou a favor da ministra, só quem fez sabe o que está fazendo.
Já vivi nesse país em um tempo de triste memória, quando a minha correspondência vinha toda aberta.
Imaginei que esse tempo tivesse terminado.
Mas não, sei não.
Esses que fazem isso agora, parecem ser os mesmos, senão parentes, amigos, colegas ou descendentes, tão descerebrados quanto aqueles que liam a correspondência alheia naquele período..
Agora, me poupem, cabeças de bagre, façam o seu trabalho sujo longe de mim e se mantenham vocês, seus colegas e distribuidores de mensagens idiotas longe da minha caixa postal.
12/31/2009
O homem que detestava cebola
Os conhecedores de vinho ao se referirem a um determinado vinho e sua qualidade intrínseca falam não apenas do vinho, mas referem-se ao local em que a uva foi plantada, a safra e quase sempre terminam, quando o vinho merece a avaliação, com a frase:
-Foi um ano excepcional.
Aquele ano para mim também foi um ano assim. Nem faço questão de lembrar que ano era.
Estávamos numa situação e época, onde tudo era excepcional, o local, o ano, as pessoas.
E apenas dois jornalistas podiam fazer notícias ou falar sobre o fato, era um projeto da Companhia Jornalística Caldas Júnior com o grupo Habitasul, não existia para os outros veículos de comunicação do estado e do país.
Só para nós.
Exclusividade de Jaime Copstein, pelo Correio do Povo e eu que cobria pela Folha da Tarde.
E as pessoas ali presentes. Essas sim, eram maiores que qualquer vinho que eu já houvesse provado. Andavam pelos salões do Hotel Laje de Pedra, em Canela, alguns dos mais importantes escritores que esse país já teve..
Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antônio Callado, Josué Guimarães, Pedro Paulo Luft, Ziraldo, Fernando Sabino, Millor Fernandes.
Claro, você olha no tempo e vê, alguns dos nomes acima e se pergunta, que significado tem em nossa literatura, hoje?.
Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, homens que inventaram a crônica no Brasil? Ziraldo e Millor ainda estão vivos e os outros?
Sei lá aonde andam.Deixaram a mídia, foram esquecidos por ela, e seus livros?
Que importância tem?
Se você nunca os leu,bom, lamento.
Antonio Callado, com um bigode parelhinho sobre a boca, vivendo num silêncio de tanto sofrimento em sua vida pessoal naquele momento, que andava pelos corredores do hotel fazendo juz ao sobrenome. Alguém aí leu Reflexos do Baile e Quarup? Jornalista, um dos raros brasileiros que pertencia ao Corpus Christi College, da Cambridge University, local, também, um dia, frequentado por Christopher Marlowe e John Fletcher.
Bebida liberada.
Já contei em outro blog, comecei a beber com Paulo Mendes Campos às 11 da manhã, no bar do hotel, e era 11 da noite continuávamos bebendo e falando, do quê? Só Deus sabe e Vinícius de Moraes.
Não é ficção, Paulo Mendes fazia parte de um grupo da qual Vinícius era mais um personagem.
Na nossa mesa sentou um dicionarista famoso no Estado,com a esposa literata e tentaram conversar conosco, mas não conseguiram, nenhum dos dois estava bêbado o suficiente para conseguir falar conosco.
E, o Paulo me falou do Drumond que tinha uma problema de pele que só o azeite santo poderia curar. Sabe aquele azeite que queimam na igreja?Aquele.
E, mais, Rubem Braga, aquele cronista fantástico, maravilhoso, detestava cebola, mas detestava tanto que quando sua empregada chegava da feira ele examinava a bolsa para ver se ela não trazia nenhuma escondida.
De noite, na mesa de sinuca, Pericles Druck, puxou um charuto cubano e desafiou Ziraldo a mim, entre outros, para um jogo a dinheiro.
De noite, na mesa de fondue, o autor de um livro que tem mais mineiros que ele só,cita-os todos, fala nervosamente comigo que não consegue ler nenhum best-seller, pede para alguém de sua confiança ler e depois fica com a certeza que aquilo desaparece no tempo.
Ele não, ele escreve para o tempo, como menino que sempre fora.
O vinho de ano excepcional.
Porque escrevi e reescrevi isso?
Porque acho que a crônica é uma obra de arte interminável.
Falo da verdadeira crônica.
Aquela que Rubem Braga e Paulo Mendes Campos foram mestres em criar, onde não existe cópia de outros autores, nem descrições desnecessárias, nem sentimentozinho barato do eu vivido. Essa crônica verdadeira dura um instante, eternamente. Acredito que sua função não é fazer rir, ou surpreender o leitor. Mas fazer um corte no tempo, tão preciso, tão forte que é capaz de fixá-lo como a um quadro na parede, de maneira que se você olhar para ele é capaz de vivenciá-lo como se estivesse presente quando ele foi feito ou quando ela foi escrita ou ainda, o que nela estava escrito.
Rubem Braga- foto de autor desconhecido
http://www.releituras.com/rubembraga_bio.asp
Rubem Braga- foto de autor desconhecido
http://www.releituras.com/rubembraga_bio.asp
12/27/2009
Intelectuais estelionatários
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: critico...*
Vladimir Maiakovski
A consagração da expressão 171 do Código Penal para o crime de estelionato, tem sido muito utilizada para designar os crimes políticos- financeiros que têm ocorrido com assídua frequência em nosso país.
Outra aplicação perfeita para essa expressão, que utilizo aqui pela primeira vez, é a dos intelectuais estelionatários. E, estelionato literário, o grande volume de publicações que alimenta as prateleiras do comércio livresco das editoras, bienais, megastores, ávidas de títulos rápidos e de fácil digestão como chessburguer e quanto mais decorativos melhor.
Frutos aparentes de uma “geração espontânea”, esses intelectuais estelionatários, surgiram no final da década de 80 e proliferam a partir da década de 90, mas diferente do que eles imaginam, são resultado, de uma Universidade paga, apática e descerebrada, e da Universidade Pública cassada, cujas razões no Brasil são bem conhecidas e de um ideal Fim da História de Francis Fukuyma.
Como para eles não há história, filhos das creches e da música da babá-televisão alimentados pelo He-man e amamentados pela She Ra, consideram que tudo que existiu pelos Poderes de Greyskull- antes deles, pouca ou quase nenhuma expressão ou significado teve.
Assim, começaram a reescrever a “história” da maneira mais pueril e desconexa possível utilizando instrumentos já vencidos de um enciclopedismo dogmático neo reciclado.
Novas histórias da literatura e dicionários regionais proliferam no país, bem como textos sobre descobertas fantásticas de novos autores contemporâneos isolados, ilhados, gênios autocráticos saídos do limbo como eles.
Critica Nem-Nem, nem um coisa nem outra, analisada por Roland Barthes em Mitologias que tenta incluir toda e qualquer referência desconhecida e não elaborada, num catálogo onde a cultura aparece dentre todas as coisas como deusa neutra, asséptica, moralmente palátavel e comestivel. Qualquer critica que não se enquadre no molde, no modelo, no quadradinho, está excluída.Critica, mesmo, nem pensar, ação entre amigos, sim, de amigo para amigo, citação por citação, sempre favorável.
Essa raça de estelionatários invadiu a imprensa - ”Com um nariz grácil como um vintém por lauda - Ele cheirou o céu afável do jornal”- na consonância com patrões que sempre consideraram a critica, seja do que, e qual for, uma péssima facilitadora de bons negócios e negociatas.
Critica? Só a capaz de gerar chantagem para possibilidade de novos ganhos, escadas para posições mais elevadas.
Vigias de um jornalismo e uma literatura amorfa geraram pequenos monstros “Um enorme lacaio, balofo e bajulante”,- cevados e alicerçados em preconceitos escolhidos a dedo, dogmáticos e sem leitura, onde Joyce, Proust e um que outro latino-americano, formam o arcabouço básico, mais do que isso não é necessário, e tudo que não diz respeito a seu umbigo e dos seus, inexiste.
E, para estabelecer novas cortes, novas relações-redes, de iguais, para comentar e analisar o mesmo, a mesmice, para o ver e ser visto, escrever e ser inscrito no cânone da banalidade comercial, impuseram o uso intensivo da mídia e do marketing como novos deuses-abutres da comunicação literária.
Esse intelectualismo estelionatário está em pleno vigor e sem contraditores do porte de um Otto Maria Carpeaux, Antonio Cândido, Afrânio Coutinho, Manoel Bandeira, para citar alguns nomes respeitáveis com trajetória de dignidade contra essa maré de professores, doutores, jornalistas, escritores/cantores sem passado, que hoje infestam os salões e palcos bem vestidos, arejados, ventilados, repletos de maus versejadores e línguas presas da República.
Referências ao Poema Hino ao Crítíco
Trad. Augusto Campos- Antologia da Poesia Russa Moderna. Ed Civilização Brasileira
Trad. Augusto Campos- Antologia da Poesia Russa Moderna. Ed Civilização Brasileira
Foto: Vladmir Maicoviski, autor desconhecido
12/23/2009
É sempre bom lembrar o poema de Bertolt Brecht
Bertold Brecht
Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."
1)Arte Renato de Mattos Motta
2)Imagem de domínio público do Arquivo Federal Alemão do poeta Bertolt Brecht - 1898 - 1956-
12/20/2009
Os quatro sábios da RBS e dinheiro para o Açorianos
O recente episódio que terminou na retirada do prêmio Açorianos de Literatura foi emblemático.
Mostrou que mesmo com todo o apoio de mídia, um servidor público tem obrigação de explicar suas atitudes aos cidadãos aos quais deve seu cargo. E podemos exigir dele esse tipo de atitude, pois não existe fortaleza nenhuma atrás de qualquer veículo de comunicação que o mantenha isento disso.
As justificativas dadas pelo secretário para retirada do prêmio ainda foram frágeis.
Um dos motivos apontados por ele é que “não ficaria bem, para transparência do evento”.
Esse não ficar “bem” me parece um tanto forçado quando se trata de algo absolutamente errado, senão irreal e talvez eticamente imoral, o ato da organização pública premiar a si mesmo por algo que faz parte de sua obrigação realizar. Até o ano passado o regulamento do Açorianos não permitia a participação de funcionários da Prefeitura.
E não foi uma “menção honrosa” que a Maratona recebeu, como frisou o secretário em entrevista a Bandeirantes, foi o prêmio Açorianos.
A explicação sobre a escolha de jornalistas “por notório saber” também deixa a desejar quando o secretário afirma em entrevista de tv que deverá ser mais cuidadoso na escolha dos integrantes nos próximos anos, escolhendo jornalistas também de outros veículos. Parece que não houve a percepção dele de que não se trata da participação equânime de veículos de comunicação, mas da forma privilegiada que isso foi feito.
Curiosamente os quatro sábios (“notório saber”) pertenciam, esse ano, a um único veículo de comunicação, ingenuidade na escolha? Falta de atenção, esse ano, do secretário para o assunto?
Quero crer que ele foi mal assessorado.
Entre dos quatro sábios (“notório saber”) da RBS que participaram do evento, um deles, além de jurado foi premiado.
Aqueles que participam como jurados podem ser premiados, mesmo que seja em categorias diferentes? Proponho que essa regra faça parte do regulamento do prêmio, se não estiver lá.
Mas afinal, existe um regulamento do Açorianos ou mudam-se as regras a cada ano?
Seguramente essa foi a única vez em toda a história de um prêmio, em caráter nacional, que ele é retirado pela comunidade cultural do Estado cansada de ver atitudes parciais do poder público como essa, que na busca da promoção pessoal esquece seus deveres para com a sociedade a quem deve sempre explicações.
O secretário também promete que até 2012 algumas categorias do Prêmio Açorianos serão contempladas em dinheiro.
Apenas promessa?Ou uma realidade para deixar todos os próximos concorrentes à premiação felizes? Acenar com recursos será uma boa atitude de quem foi colocado em um cargo público para ter ou exercer uma política cultural, ou cultura? Me sinto desrespeitado quando o poder público usando a prerrogativa de ter recursos na mão, que não são seus, os usa para prometer algo que talvez não possa cumprir.
Com relação a isso é preciso questionar alguns aspectos, porque a poesia deverá só receber a premiação em 2012 e não em 2010?Porque não todas as categorias? Quais foram os critérios que nortearam essa escolha e, de onde sairão os recursos para tanto, que até agora não existiam?
Para concluir gostaria de cumprimentar os jornalistas Felipe Vieira e Lúcia Mattos na demonstração que deram de que existe a possibilidade da realização de um jornalismo sério, responsável e que isso, em última análise, é o pleno exercício da cidadania que não se curva diante do poder exercido pelo Estado e nem dos poderosos veículos de comunicação.
Parabéns a todos que estiveram nessa batalha.
Em tempo: nenhum veículo da RBS noticiou a revogação do prêmio.
Marco Celso Huffell Viola
Fontes: Correio do Povo 18 de dez de 2009
Jornal da Bandeirantes – 19 h horas 17 de dezembro 2009
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