5/26/2007

Porto Alegre vai parar!

Vai parar de ignorar a poesia que vai invadir as ruas, os becos escuros e sem saída de uma cidade pequena que se pretende grande. Vem aí o Porto Poesia, ancorando nessa cidade que também se pretende alegre e esquece que a poesia é a verdadeira fonte da alegria.Vem aí o Porto Poesia trazendo no bojo a revolução da poesia que acontece em bares nunca dantes navegados, em saraus feitos a dez graus abaixo de zero por poetas loucos, roucos, insones, insanos que gostam de uma arte que ninguém compra e ninguém vende.Vem aí o Porto Poesia que vem para aquecer,desafogar Porto Alegre, desatolar Porto Alegre do seu bem comportado marasmo cultural e, de contrabando,escondido no porão dessa nau capitânia, vem junto a primavera, aquela prima distante de todos os poetas.

5/17/2007

Até quando seremos uma nação de perdedores? O Dólar Furado

Até quando seremos uma nação de perdedores? O Dólar Furado

Aparentemente está em curso no país mais um estelionato do governo federal contra a nação.
Talvez agora fosse a hora da Polícia Federal montar mais uma operação de nome misterioso que, sugiro que, desta vez seja o Dólar Furado e começar a investigar, mesmo, a própria casa. Ou seja, o governo federal. Ou talvez, isso seja obrigação do, quem sabe, Ministério Público.
A razão da necessidade de uma investigação, na minha opinião, está alicerçada na opinião de um importante jornalista de economia, sobre a recente queda do dólar.Ele não sugere isso, essa investigação, quem sugere sou eu, afinal, como cidadão desse país tenho todo o direito de exigir que o poder público funcione adequadamente e não prejudique a nação que representa.
De acordo com o respeitado jornalista de economia Luis Nassif, a recente queda do dólar está alicerçada em acordos um tanto suspeitos, diz a coluna dele do dia 16/05/2007 que tem como título As gambiarras e o câmbio http://luisnassif.blig.ig.com.br/”Algumas semanas atrás chamei a atenção para o acerto em curso entre a ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Autoveículos) e o novo Ministro do Desenvolvimento Miguel Jorge. De repente, o ex-presidente da ANFAVEA Rogério Goldfarb mudou de opinião e passou a dizer que a apreciação cambial não era problema.Estava na cara o início do processo de acertos com os setores mais influentes, para calar a crítica contra o câmbio.Ontem, entre os setores “desprotegidos” que serão beneficiados com redução de tributos e encargos, estava o sofrido setor automobilístico brasileiro”.
A denúncia do jornalista, para mim, é grave, mais alguém dá importância a ela?
E a conta? Quem vai pagar esses acordos, não bem explicados?
Aparentemente toda a sociedade brasileira, todos os que estão do lado de fora do governo e dessas grandes empresas, ou seja, todos os que não se beneficiam com a especulação de um câmbio mantido artificialmente com o chamado dinheiro público.
E a mídia? Porque está a favor?O próprio Nassif em entrevista a Tv Cultura no dia 15 de maio explica: toda a mídia aumenta seus lucros na compra de material importando, tvs a cabo, revistas, etc, têm lucro com o dólar baixo.
Há setores da mídia exultantes com esse dólar furado e o exagero é tanto que, segundo Nassif, uma repórter de tv a cabo sugeriu a candidatura do atual presidente do Banco Central nas próximas eleições para a presidência da república.
Não é uma beleza?
Como é a segunda vez que acontece isso, em duas administrações subseqüentes, na primeira foi no governo Fernando Henrique que, segundo consta, já fez a sua mea culpa sobre esse “erro” econômico.
Não consigo imaginar que seja a repetição não intencional de uma mesma política, mas de uma política intencional para beneficiar os mesmos setores em detrimento de toda a economia do país que perde sempre. Aumentamos empregos na China e, em vários outros países onde os empresários brasileiros fazem compras ou grandes negócios com o dólar baixo. Perdem-se empregos aqui, quebram empresas pequenas ou seja, perdem todos. E quando a economia do país como um todo perde, repito, perdem todos.
Será que não chega desse país ser um país de perdedores?

5/15/2007

O Haiti é aqui

Marco Celso Huffell Viola - de Porto Alegre

Esse país não precisa de heróis, precisa de homens de verdade

A canção Caetano Veloso e Gilberto Gil é uma acerto inegável sobre esse país.Ela se justifica plenamente.Completamente.
No dia 7 de maio 2007) a RBS (Rede Brasil Sul, a principal rede de comunicações do Rio Grande do Sul) exibiu uma reportagem feita no Haiti pela repórter Rejane Schultz onde ela mostra os brilhantes resultados obtidos pelo exército brasileiro no Haiti na sua missão de paz junto aquele país.
Na reportagem, ela diz que é agora é possível caminhar pelas ruas de Port Príncipe com tranqüilidade e exibe alguns rostos riscados um painel como sendo os dos marginais que atormentavam as populações indefesas que hoje dançam nas ruas com algumas bandeiras brasileiras.Surge também no meio da reportagem um jovem general brasileiro, muito simpático, dizendo que está lá apenas cumprindo a sua missão e que o exército brasileiro quando não está combatendo, está auxiliando a população do Haiti.
Fui ao delírio!
Ao ver uma reportagem assim, a minha antiga profissão de repórter (de repórter policial) baixa como um espírito maligno e começa a querer melhorar a reportagem. E, na verdade, como a profissão de repórter é uma função onde existem mais perguntas que respostas, surge a primeira questão: Porque uma tv do extremo sul do Brasil vai ao Haiti fazer uma reportagem sobre aquele país?
É incomum.
Raramente, pra não dizer nunca,eles fazem reportagens internacionais.
Talvez porque o general que dirige as tropas brasileiras seja oriundo do Rio Grande do Sul, pode ser uma resposta.
Afinal, do Rio Grande do Sul teve por hábito, alguns anos atrás, fornecer generais para governar esse país, bem como civis. E, essa rede de tv não faz reportagem gratuita.Tudo nela é pago, hoje ou amanhã.Seguem a filosofia de que não existe almoço grátis.
Mas isso é apenas uma ilação, sugiro apenas aos leitores que procurem saber e guardar o nome do general, pode ser importante no futuro, o anterior que estava lá, morreu, suicidou-se, parece, em situação muito estranha. Mas quem quer saber a verdade sobre um assunto como esse? Só os arapongas desses departamentos secretos das organizações militares, o respeitável público está se lixando para isso. E os repórteres que passaram por lá, depois disso, não mencionam o fato.
Outra questão: Missão de Paz não é um eufemismo?é uma expressão forçada, pois para conseguir essa paz é necessário guerrear, Missão de Guerra seria mais adequado.
Agora o Haiti.
É um país tão miserável que povo anda comendo barro, (barro com sal, tortas de barro com sal) isso mesmo, barro, aquele coisa que dizem que todos nós somos feitos, de tão miserável que é.
Um povo pobre, autofágico, que não possui nenhuma riqueza significativa, nada, nem em terras, nem em recursos naturais, nada, vezes nada.Só gente faminta e espoliada, desde que os franceses saíram de lá.A colonização francesa teve essa característica, deixar a terra arrasada atrás de si.
E o Haiti só perpetuou o modelo colonialista extrativo.

Ah! Mas porque o grande irmão iria se incomodar em apaziguar um lugar assim? Onde não existe nada para explorar?O país faz fronteira com a Republica Dominicana que é mais um estado informal norte-americano E, ali, na República Dominicana está tudo tranqüilo, é possível aos norte-americanos, canadenses e os mais ociosos cidadãos do mundo com muitos dólares na conta aproveitarem o sol, fazendo turismo, naturismo, ou simplesmente sendo hedonistas.
Pra que se preocupar com o outro lado da fronteira que só tem vodu?
O grande irmão tem mais o que fazer.Tem que cuidar da paz do mundo, tem que cuidar dos interesses do petróleo, tem que cuidar dos interesses das empresas multinacionais sejam quais forem, esses haitianos...isso é uma África, aqui na América Central, nem consumidores são ah! Pega um exército qualquer sobre a bandeira da ONU e bota lá.
Port Príncipe é menor, aliás, o Haiti inteiro é menor que a grande São Paulo.
Agora vem outra questão, levantada recentemente na Tv Cultura quando foi entrevistado o jurista Hélio Bicudo no programa Roda Vida, quem é o comandante em chefe das forças armadas? Não é o presidente da República? A minha nova pergunta, como repórter é: porque ele, o comandante em chefe das forças armadas não desloca esse exército, esse que apaziguou o Haiti, com experiência em conflitos desse tipo( de rua, dentro de cidades) para resolver o problema das grandes e belas cidades brasileiras onde balas rascantes riscam a noite?Precisa pedir licença pra ONU?Sugiro que nós brasileiros façamos um abaixo assinado para a ONU para conseguir trazer essa força de paz apaziguadora aqui para o Brasil, já que não há vontade política de ninguém para fazer isso.
Basta deslocar esse exército, com esse bonito e generoso general que é guerreiro quando é preciso- como ele afirmou na reportagem- para tomar conta, acabar com as balas perdidas que derrubam mais brasileiros num ano que todos os haitianos que morreram desde que os Ton Ton Macoute largaram aquele lugar esquecido por Deus e feio por natureza.
E, agora perco toda a elegância e mando pra longe a reportagem e chamo esse general as falas, armado, assim, no Haiti, até eu cumpadi, quero ver se neguinho é da porrada mesmo e sobe a Rocinha até o topo, a pé, com a mão na cintura fingindo que está segurando um trinta e oito.
Hoje, não amanhã.
Mas eu não devo entender mesmo de geopolítica e muito menos de relações internacionais para considerar o Haiti mais importante que o país em que vivo. E não conseguir entender que varrer o quintal alheio seja mais fácil que varrer o próprio quintal.Triste o país que precisa de heróis, já dizia Bertold Brecht. Esse país não precisa de heróis, precisa de homens de verdade.

5/09/2007

Cultura não é entretenimento- ou então vamos criar o ministério do entretenimento

Sou fã de carteirinha de Gilberto Gil há muitos anos, compositor e músico sensível como raros no Brasil, não fiquei admirado com a sua aproximação com o atual governo. Gil sempre foi um artista engajado nas lutas sociais, sofreu com a censura no período da ditadura e mesmo depois continuou atuando politicamente, além de manter a sua carreira de músico e compositor. Atitude incomum nos artistas brasileiros, contemporâneos, que preferem ignorar o seu em torno ou então, mantém atitude de alienação, como se o artista estivesse fora do mundo,quando não têm atitudes meramente reativas ao noticiário da mídia, porque perderam a capacidade de refletir sobre a realidade adjacente.Não sei se Gil precisou assinar ficha em algum partido para atuar como ministro da cultura, o que não chega a ser relevante. Também não achei inadequada a sua indicação, li várias entrevistas onde ele dizia acreditar ser possível atuar dentro do governo e auxiliar a melhorar a realidade do país.
Houve ocasião em que ele foi vaiado por estudantes insatisfeitos com o seu ministério e do da educação.Pensei que depois disso ele iria se afastar do governo já que como artista popular nunca havia sofrido uma vaia ou condenação do seu trabalho pelo público. A ligação entre política e a arte quando se torna muito presente na obra do artista, acaba prejudicando a arte do mesmo.Fica mais difícil separar os dois, quando o artista põe a sua arte a serviço da política.E, nessas ocasiões, raramente o público separa o artista do político que exerce um papel momentâneo na vida do país.Minha admiração pelo seu status de político aumentou depois disso, mesmo sabendo que o Estado que ele representa quase nada tem feito de importante para a cultura, é possível contar nos dedos as novidades surgidas nesse governo na área cultural.As leis de incentivo continuam a mesma droga de sempre, a do livro, não afetou em nada o preço final do livro, teatro, música clássica, todas as artes e artistas, todos, invariavelmente, continuam correndo atrás de patrocínio privado, não existe realmente uma política pública real de apoio à cultura nesse país.Não posso condenar o ministro por esse quadro que vem de longa data e não sei mesmo o quanto de novo ele tem feito para modificar essa situação ou apenas segue apagando incêndios.
No dia 8 de maio ele deu uma entrevista ao Observatório da Imprensa sobre as novas políticas para tv e internet.Durante a entrevista mostrou todo o seu entusiasmo com a criação desse novo sistema que começa a ser apoiado pelo atual governo e que pode realmente possibilitar a democratização e a pulverização da cultura no país, através da facilidade do acesso ao uso maciço da tv e internet, se tudo o que se diz sobre o assunto for realmente verdade.Na longa entrevista que o ministro deu a Alberto Dines, na minha opinião, resvalou em apenas um assunto: Confundiu cultura com entretenimento.
Mas essa não é uma confusão só dele, o repórter Dines, mesmo com larga experiência que tem, entrou na do ministro e pareceu acreditar que cultura é sinônimo de entretenimento ou as duas são a mesma coisa.Se alguém tem alguma dúvida sobre isso basta ir atrás do dicionário para conhecer a distância abissal entre as palavras e o significado de cada uma.
A noção que cultura é entretenimento (ou diversão, para usar um sinônimo mais adequado) começa a partir da segunda guerra mundial com o predomínio cultural norte-americano sobre a arte. E nenhum segmento artístico ficou imune a isso e, a televisão brasileira, que era o assunto em debate do ministro com o jornalista, seguindo o mesmo padrão da tv americana tornou-se sinônimo de diversão ou entretenimento.
Mas é preciso que alguém diga ao ministro, que também, até onde se sabe, ele não é um ministro do entretenimento e sim da cultura, que a cultura está acima, além e também subjacente ao entretenimento.
Você pode ver um programa de televisão na Bósnia, cópia de um programa de televisão americano que, mesmo assim, os bósnios vão se comportar como bósnios e falar como bósnios, ou seja, cultura é o que faz um sujeito ser bósnio ou não bósnio.Entretenimento é o que os bósnios fazem pra se divertir, ocupar seu tempo ocioso como bons bósnios que são.
O entretenimento é um aspecto da cultura e não a cultura em si.Será preciso ser mais específico que isso?
Se a arte, a filosofia ou a educação, por exemplo, fossem feitas apenas para entreter talvez vivemos no melhor dos mundos e a nossa vida fosse um show permanente onde passaríamos cantando e abanando os braços para cima, feito idiotas, ou num filme hollywoodiano onde viveríamos iluminados por holofotes.
Continuo fã do artista, do ministro nem tanto apesar da confusão sobre esse assunto não ser só dele.Agora, que esse país está precisando muito de cultura isso está.

5/03/2007

Um textinho de Cecília Meireles-e um pouco de tv aberta

Marco Celso Huffell Viola- Porto Alegre

Pedro Bial em um dos últimos episódios da série BBB7, para criar um clima na despedida de mais um participante, resolveu ler um “textinho de Cecília Meirelles”, os participantes que não tinham a mínima idéia de quem é/ou foi Cecília, ficaram sem entender a razão da leitura do “textinho”, o respeitável público também não entendeu, porque também não conhece uma da maiores poetisas da língua portuguesa e sem exagero da poesia ocidental.
Bial que foi um dos jornalistas importantes desse país, parece que resolveu jogar o seu currículo de grandes reportagens e entrevistas como as realizadas com Darcy Ribeiro, João Cabral de Mello Neto, entre outras, no lixo da comunicação imbecil e rasteira. E tem surtos como esse, onde tenta aparentar algum aspecto de intelectual e acaba atirando na banalidade o nome de Cecília Meireles em um programa realizado para 50 milhões de semi analfabetos ou analfabetos culturais, com participantes semi-analfabetos apresentado por um jornalista que esqueceu ou nunca teve a noção entre o importante e o fácil.
É fácil enganar um povo como o nosso, carente de tudo.
Basta brincar com a esperança daqueles que nada tem, constranger mulheres de poucos recursos a mostrar seu corpo e o diabo dá risada feliz a cada domingo que os índices de audiência empatam entre as mais importantes emissoras do país.
E, essas emissoras, sem nenhum compromisso com nada a não ser com o seu faturamento, exploram a credulidade, empurram pseudomúsica, pseudocantores, pseudo-atores guela abaixo dessa multidão de miseráveis.
E vamos rir do sujeito que caiu no chão, que caiu do telhado, que caiu, que caiu de algum lugar, que levou uma pancada, tudo narrado por um apresentador mal educado e grosseiro.
Aliás, a grosseria é marca registrada de alguns programas, onde a grosseria intitucionalizada tenta aparentar independência dos valores mínimos de convivência social e respeito físico pela integridade do próximo quando na realidade demonstra é falta de inteligência em fazer algo melhor.
E o resto da programação segue num ritmo de gincana, de todo o tipo, cada uma mais infantil que outra.
Quando não aparece um padre cantor, numa emissora católica, travestido de padre, usando um sobrepeliz vermelho que canta rebolando em cima do altar em meio a uma missa, cantando canções que ofendem a mínima noção do que seja música e letra. E outro, na mesma emissora católica, oferece à venda uma jóia em forma de cruz com terra recolhida em Israel.O clip da busca dessa tal “terra santa” pelo padre nada fica a dever aos clipes mais bregas da MTV, é de arrepiar, chega a ser pornográfico, o padre caminhando descalço, olhando para o infinito, entre as águas do Rio Jordão.Repulsivo.
Enquanto isso a igreja diz que faz esse ano a campanha da fraternidade sobre a Amazônia e essa emissora de tv não realiza um documentário, uma notícia, uma pesquisa sobre a Amazônia e, depois da missa, volta o padre cantor a repetir ladainhas para uma imagem de um santo pregada na parede.E repete suas frases com tanta veêmencia, que só sendo santo pra aguentar um chato daquele tamanho.
Mas, enquanto a tv católica não fala nada sobre a Amazônia, a outra, para enfeitar a sua grade de programação, gasta alguns milhões para produzir uma série sobre da Amazônia com veleidades sociais, utilizando uma mistura de textos que a autora não credita a ninguém a não ser a sua genialidade. Mas isso é para ser exibido às 23 horas, quase proibido para os menores em inteligência e percepção que podem interpretar mal aquelas questões de conflitos agrários que terminam por glamourizar e mitificar a luta de Chico Mendes e tantos que morreram naqueles conflitos que continuam ocorrendo, tornandos palatáveis e de fácil assimilação, tirando desses conflitos agrários o que tem de importante em troca de uma maquiagem mal feita, mas de aparente bom gosto.
Em nome da audiência criada e forjada pela estrutura dessas programações, há personagens como Jô Soares cujo programa copia os modelos de talk show norte-americanos, e que tem por objetivo de fazer rir permanentemente uma platéia escolhida de estudantes, que autentica a mediocridade das entrevistas. Quando eles riem, a entrevista vai bem, quando eles ficam quietos é hora de chamar as vinhetas e trocar o entrevistado.
Em recente entrevista realizada com o poeta Affonso Romano Santana que divulgava dois livros seus de poesia, na ânsia de agradar o auditório, ele pergunta se o Affonso não conhecia nenhuma quadrinha de banheiro.
Pior que essa, só a tv italiana ou da Libéria, se a Libéria tiver tv aberta.

Tenho medo é desses amarelos. A neo-literatura

Emanuel Medeiros Vieira propõe algumas questões simples ao presidente da República e que ele, com certeza, terá dificuldade em responder:
O senhor já leu um livro, neste ano?
O senhor já leu algum livro, no ano passado?
O senhor já leu algum livro, nos últimos dez anos?
O senhor já leu algum livro na vida?O senhor acha que literatura é algo importante?
"Emanuel, agora existe também uma nova praga, a neo-literatura. Leitura fácil e rápida, disfarçada de paradidática.
E, ele pode ter lido, afinal, o governo compra livros desse tipo, as toneladas, todo o ano.
Essas questões lembraram-me uma entrevista que demos para a TV Educativa, Paulo Markun, Nei Duclós e eu, em 2004, durante a Feira do Livro, em Porto Alegre.
Na ocasião, nós três promovíamos nossos livros.Nei, o seu romance Universo Baldio, eu, Poemas para Ler em Voz Alta e Paulo Markun, O Sapo e o Príncipe, onde ele, Markun, traçava um paralelo sobre as carreiras de Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva. Dois presidentes brasileiros oriundos da esquerda e que chegavam ao poder, um após o outro.
Apesar de não estar participando da entrevista como jornalista perguntei a Markun que tipo de repercussão o seu livro tivera junto aos biografados.
Ele respondeu que recebera os cumprimentos de Fernando Henrique e do Lula estava aguardando que a esposa, dona Marisa, lesse o livro para ele:-"Porque é ela quem lê”, -respondeu Markun, finalizando.
Seria cômico se não fosse trágico.
Dois presidentes que saem da esquerda e se atiram num projeto neo liberal sem escalas para governar o Brasil, afirmando que são sociais -democratas.
Um, o Sapo Barbudo (como o chamou, certa vez, Brizola) que não precisa e nunca precisou de leitura porque tem uma intuição do cão e uma percepção extra-sensorial para a oportunidade e o peleguismo, desde seus tempos de operário. "Flor estranha criada na estufa da ditadura” clamava, também Brizola, enquanto alguns outros líderes sindicais amanheceram com boca cheia de formiga ele prosperava, engordava o seu discurso e sobrevivia a tudo.
Alguém aí lembra de Manoel Fiel Filho? Preso em 1976, sob a acusação de pertencer ao PCB e que apareceu morto, enforcado em sua cela, poucos dias depois da prisão.
E, em 1980, depois de um brilhante carreira como líder sindical, Lula lança um partido com uma bandeira vermelha, em plena Guerra Fria (e o Golbery no seu Geopolítica e o Poder, dando risada).
Suassuna em sua obra prima O Auto da Compadecida, botava na boca do cangaceiro Severino, o que ele pensava sobre João Grilo:“-Tenho medo é desses amarelos!”
Essa gente amarela, que vem do nordeste, capaz de sobreviver a qualquer coisa, não pela violência, nem pela leitura que não tem, nunca teve e até não tem nada contra, não ( é capaz até de ler um bom cordel) mas pela esperteza e sagacidade, capaz de meter medo em cangaceiro.
O outro presidente, é o príncipe, segundo identifica Markun em seu livro, Fernando Henrique. Enquanto o amarelo tem uma intuição do cão, esse tem uma formação do cão, com leitura, com vários doutorados honoris causa das mais importantes universidades do mundo.
E o país?
Bom, o país é discurso, é fazer o que todos os outros fizeram anteriormente.Transferência de recursos, etc, mas o importante não é o país e, vamos fazer uma fundação com meu nome...Afinal eu criei isso eu criei aquilo.
O plano real é plano com mais mães e pais que conheço. Tem o Ciro Gomes, o Itamar, tem o Rícupero, lembram dele? Que ganhou depois da genial jogada da parabólica como prêmio a embaixada em Lisboa.
E não vamos esquecer também o Fundo Monetário Internacional,verdadeiro progenitor de todos os planos econômicos anteriores e posteriores.Se não fosse assim Israel não teria realizado o mesmo plano de confisco de moeda, idêntico ao Collor, tal e qual.
Nada se inventa, tudo se copia.
Criou nada, princípe cara pálida.Obedeceu indistintamente a tudo e a todos...Nem se deu o trabalho de se definir politicamente depois de ter abandonado a esquerda, virou o quê? Social democrata? Mas o que é social democracia, afinal? Algo que faz acordo com os liberais?
Pra que se definir? Sem definições podemos fazer acordos á vontadeDeixa assim, melhor assim, ninguém entende nada mesmo..Economia, então.
Até 1990, ninguém no governo sabia o que era dívida pública.Isso eles afirmam num documentário feito pela TV Senado ou TV Câmera, onde os bem penteados ex-ministros Fernando Henrique, Bresser Pereira, e o hacker, ex-diretor do Banco Central, Gustavo Franco (esse Gustavo é um ET, era garoto quando assumiu a direção do principal Banco de uma das sete maiores economias do mundo, sem nenhum mérito aparente ou posterior-até agora não ganhou nenhum Nobel de economia- só posso atribuir o fato, a ele ter um padrinho maior que a mãe dele, nunca vi coisa igual no mundo) explicam o que houve em mais essa década perdida do país.
Só para lembrar:Os bancos privados vão incorporar ao seu patrimônio, até o final desse ano (2007) alguns bilhões de dólares que pertenciam aos poupadores e que foi literalmente surrupiado por um dos planos verão do senhor Bresser e et caterva.
Vejam os presidentes dos principais bancos centrais no mundo, cada um com cem anos de atividades e serviços prestados as suas nações e com 1200 pós-graduações.Aqui eles entregam a direção desse banco pra qualquer um, agora é a vez de um ex-gerente geral do Banco de Boston, bem falante, e que deu um lucro louco pra esse tal banco, aqui no Brasil, sabe como? Só aceitava como cliente do banco (quando era gerente do mesmo), salários confirmados acima de 5 mil reais, além de emprestar dinheiro ao governo que é onde os bancos fazem muito dinheiro, melhor que isso só fabricando dinheiro por conta própria. Entrevistei o homem quando ainda dirigia o tal banco norte-americano.
Vai ver se ele também não é um amarelinho.Mas voltando ao príncipe.
Ele sai do governo e sua missão é explicar, como o personagem de Lampesusa: “Fizemos tudo pra deixar tudo como está.Vem aí outro, com um discursinho mais à esquerda pra fazer a mesma coisa”.E vamos aproveitar e dar algumas palestras cobrando bem caro e fazendo graça pro diabo rir.Em país de cego.Ninguém pergunta nada.E, parece que agora, o partido do sapo e do príncipe são sociais democratas.Está na hora de começar a cobrar essas definições, de verdade, dessa gente.
Apesar de não teres dirigido a pergunta a mim, entro na conversa e respondo, Emanuel: leitura pra quê?O exemplo dos dois presidentes, é bem claro, um leu o suficiente pra procurar deixar seu nominho na história, mentindo que fez um plano real, uma pirâmide com vista pro nada e o outro, um amarelinho que escapou da fome, da pobreza, da exclusão, porque tem uma esposa que sabe ler.
Pra isso, serve a leitura e também pra distinguir essa gente.Pra apontar quem são uns e quem são outros.E pra que serve a cultura? Goering, já dizia: me falam em cultura e puxo um revólver!
Hoje não precisa nem puxar o revólver, a cultura está tão elitista e tão sem acesso a maioria da população como estava no Quatroccento ou na baixa idade média.
Cultura virou questão de muito dinheiro.Os livros para irem para as prateleiras de algumas livrarias, têm pagar mensalidade, senão nem passam pela porta.Nas livrarias de aeroporto, se não for auto-ajuda, eles não querem.
E as editoras?Essas, estão sendo adquiridas por multinacionais ou se tornando mega editoras que crescem vendendo milhões para as compras estatais de livros chamados didáticos e para-didáticos.Nesses últimos anos as editoras brasileiros descobriram um novo veio, reciclar autores como Machado de Assis.
Recentemente uma grande editora encomendou a vários autores nacionais textos sobre o personagem Bentinho, do Machado, com novos "enfoques", é claro
E quem vai comprar essa droga?O governo.E quem vai ler?Aparentemente os neo-leitores do primeiro e segundo grau.E quem paga essa nova neo-literatura?
Advinhem...O governo, com suas maravilhosas compras anuais e cujos critérios precisam ser urgentemente reavaliados.Basta tentar entrar no site de registro dessas compras pra ver que há alguma coisa estranha acontecendo por ali.Ninguém fala nada porque para o mercado livreiro está bom, e num país em que nem o presidente lê e, quando, havia um presidente leitor, ele também nunca deu importância ao livro, pra que alguém vai se preocupar com isso?E o dinheiro é de quem botar a mão primeiro.E pelo jeito está sobrando pra encher as prateleiras de bibliotecas que ninguém vai consultar.
Quanto aos amarelinhos, por favor, não confundam o que disse aqui com preconceito, afinal, Suassuna falou neles primeiro, e esse povo tem sobrevivido a essa raça de cobras criadas porque também é todo ele um pouco amarelinho e resiste a tudo.E, talvez, seja até por isso que votaram nele, até descobrirem que por baixo daquela barba ele já renegou a sua gente e mudou de cor há muito tempo, se é que algum dia teve alguma.

4/19/2007

A universidade e o preconceito- uma coleção étnica

Tenho por parte de mãe, uma bisavó negra ainda escrava quando casou com o inglês, meu bisavô (em cartório em São Gabriel) e, por parte de pai, um italiano que chegou no Rio Grande do Sul, antes da grande imigração de 1870 e casou com uma paraguaia.
Não tenho direito a cidadania italiana porque o sobrenome se perde numa família extremamente prolífica. Não tenho e nem quero a cidadania paraguaia, porque, no máximo o que vou conseguir é alguma isenção sobre produtos importados, se algum dia virar camelô, a inglesa, então, seria luxo demais. Muito menos, posso reivindicar a cidadania nagô, que possuo legitimamente, mesmo tendo olho azul, porque sei lá que região da África minha bisavó provém. E aí, me sobra a condição de ser brasileiro e cidadão do mundo. O que é uma condição difícil, mas não lamentável. Lamento, isso sim, quando deparo com o fato de que os mais cultos,ou aparentemente mais cultos, ou seja, aqueles que tem acesso à cultura em nosso país não sabem exatamente o que são e a que vieram.Ou não fazem questão de saber, ou então fazem questão de manter esse desconhecimento e divisões étnicas,separatistas, sociais ou culturais para dele usufruir alguma benesse ou ainda, para aumentar esses abismos e criar mais guetos entre homens, nações e raças.Lamento quando deparo como o fato de Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), através de sua editora ter uma coleção de livros editada por alguns, professores? que não sei se mal esclarecidos ou mal formados ou os dois, que dividiu autores (vários) do Rio Grande do Sul por algumas etnias formadoras do Estado. Nos livros editados pela universidade há textos de poetas,escritores,jornalistas, com os seguintes títulos: Nós, os afro-gaúchos; Nós, os gaúchos;Nós, os ítalo-gaúchos; Nós, os teuto-gaúchos. Estão a venda no site da Editora da Universidade www.ufrgs.br/editora/ Na lista de preços é mais fácil encontrá-los.Os organizadores destas antologias esqueceram que o Brasil, hoje, não é um Estado multinacional e sua formação racial em alguns casos é quase imprecisa. Falei em alguns casos, porque existem no país, ainda em uso entre as diversas nações indígenas quase 120 idiomas, mas mesmos essas nações apesar de possuírem seus estamentos, estão submetidos, acima de suas regras, a regras jurídicas legais e lingüísticas das quais fazem parte a configuração da nação que vivemos. Esqueceram esses, professores? as perseguições que sofreram os alemães no Rio Grande do Sul para integrarem-se? Será que esqueceram, também, no que conduziu essas separações étnicas antes e durante a segunda guerra mundial? A guerra em Ruanda entre as etnias tutsi e hutu que já matou mais de 1 milhão de pessoas -divisão étnica,essa, alimentada pelos colonizadores belgas; dos curdos, hoje, um povo sem pátria).E parece que a coleção parou nisso, por quê? Se continuasse, faltaram, imagino, títulos como: Nós, gaúchos-gauleses (que reuniriam os belgas e franceses), Nós, os gaúchos ingleses, Nós, os gaúchos espanhóis (que reuniriam os catalões e os bascos).Mas qual foi mesmo o critério de escolha para a seleção de material que consta nessas antolgias?Se o critério para escolha dos colaboradores na coleção foi pela ordem de descendência patrilinear eu poderia colaborar em apenas um dos livros.Se foi regional e patrilinear em dois livros e, se nenhum dos anteriores, poderia apresentar textos para três dos livros, pois sou pela minha ascendência: afro-gaúcho, gaúcho e ítalo-gaúcho e se mexer um pouco mais há um traço de basco.Acho interessante que nessa coleção tenham sido esquecidos, também os judeus-gaúchos e os árabes (nessa entrariam descendentes de palestinos/ turcos e todas outra etnias da qual faz parte o mundo árabe e que está presente no Rio Grande do Sul desde a sua formação, basta buscar em sociologia histórica Manoelito de Ornellas- Gaúchos e Beduínos, e na ficção Simões Lopes Neto-Lendas do Sul-A Salamanca do Jarau, cujo título já evidencia a ligação com a Espanha moura. Onde estão estes últimos?Incluídos nos gaúchos?Por quê?Suspeito que eles existam.Porque não tiveram também o seu livro, em separado, nesta linda coleção étnica?Será que faltou dinheiro para editar ou daria algum problema? Sugiro que na continuidade da coleção façam mais dois livros, além dos já citados, com os guaranis, Nós, os gaúchos tupi-guaranis, ou vamos esquecer a sua cultura e história para formação desse Estado, também? E outro, com o título:Nós,osgaúchosautosegregadosesegregadoresdaculturabrasileira.Agora vem a dúvida: Vamos pegar três exemplos, se vivos fossem no Rio Grande do Sul: Machado de Assis. Em qual dessas coletâneas o colocariam?Afro-brasileiro? E aquele negro Cruz e Souza; e aquele mulato genial Afonso de Lima Barreto, que comemora esse ano 125 anos de seu nascimento sem nenhuma grande festa (patrocinada por algum banco estatal-com direito a discursos de vários especialistas autonomeados em sua obra) e que disse: “nasci pobre, nasci mulato...Executei minha missão fui poeta!”.Não daria também mais um título:Nós,os gaúchos mulatos ?Ficamos então, no pior dos mundos.Aqueles que têm a obrigação de sinalizar, educar, mostrar, orientar, depreende-se por uma coleção dessas não terem a mínima noção do que é cultura, do que é importante em cultura, mesmo se tiveram publicado um milhão de livros antes desses.Na minha opinião, justificar por qualquer ângulo ou critério uma separação étnica para cultura é criar mais divisões e preconceitos. Tudo começa com a cultura e a educação, inclusive os preconceitos. Acredito que objetivo da editora de uma universidade seria trabalhar contra isso.Não vejo coleções com critérios étnicos,separatistas, semelhantes editadas por universidades brasileiras ou em outros países.Se houverem,por favor me avisem! Seleção de textos baseado na cor da pele de seus autores,sexo, origem familiar,localização geográfica, faixa etária,religião e profissão são restritivos e inservíveis para qualquer noção ou visão de cultura que se pretenda abrangente e importante, para não ser mais rigoroso e aprofundar as questões de racismo ou separatismo. Enquanto isso, a Universidade perde cada vez mais sua importância social e cultural com publicações como estas, realizada com dinheiro público que se prestam mais a dividir aquilo que deveria estar unido em torno de uma cultura verdadeiramente brasileira e universal.

4/17/2007

Conosco, Nei, a anatomia ficou Maicoviski

para Nei Duclós

Houve um tempo que era sempre verão
que o mundo cabia na nossa mão,
no bolso havia um mapa do céu,
cantávamos enlouquecidos a plenos pulmões, na janela,na porta, no meio da rua
para quem quisesse ouvir
sem se preocupar com a vida,
com a morte, com o tempo,
nada, nem ninguém ousava nos desafiar
ríamos de madrugada,
no focinho dos cães raivosos.
Recordo o medo e o silêncio imposto,
meu pai dizendo:
- filho, não escreve essa hora da noite,
o barulho da máquina, tem sempre alguém escutando. Mas não havia receio,
era sempre verão,
vivíamos em outro país
onde toda a geografia havido ficado louca,
éramos feitos só de poesia
e os que nos vigiavam não entendiam nosso canto
e nos olhavam desconfiados,
quando estenderam sua garras na nossa direção,
não conseguiram nos aprisionar em seu baú de ossos,
não havia armas e nem cadeia para nós,
a poesia era nossa mãe coragem,
ela nos alimentava com seu sangue e com seu suor,
e não tínhamos lágrimas,
pois cada vez que a vida nos batia, querendo nos acordar,
retrucávamos em verso ou prosa
e com um sorriso que todos nós tínhamos.
Hoje, percorrendo este labirinto de cartas, recortes, fotos e nomes esquecidos pelo caminho percebo que ela nunca nos abandonou e continua sendo verão,
toda a vida, a vida toda em nosso coração.

1/22/2007

O imperador de um asilo de loucos e do lugar em que nascem os sonhos

Mário de Andrade errou.
Ao falar sobre a criação de Macunaíma o autor afirmou que não desejava inventar símbolos nem um personagem que representasse todos os brasileiros. No entanto, na medida que dava vida ao herói, (por suas desqualidades) de preguiçoso, mentiroso foi percebendo as inúmeras semelhanças entre ele e os brasileiros ou latino-americanos em geral, que são, segundo ele, povos sem nenhum caráter. Explicando, dizia Mário: “Com a palavra caráter não determino apenas a realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento da língua na História na andadura, tanto no bem como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional.” (1).
Macunaíma é uma obra ímpar na literatura brasileira pela formulação estética e temática. Mas é isso, e acaba aí.
A bobagem que o teórico Mário fez ao analisar seu personagem foi de não separar a ficção da realidade.O ponto de partida para a criação de Macunaíma é a obra do etnógrafo alemão Koch-Krunberg, que recolheu uma série de lendas dos índios taulipangues e arecunás, entre 1911 e 1913.São lendas, parte do arcabouço mítico de nações diferentes, etnias diversas, diferenciadas em usos e costumes.E para que servem os mitos e as lendas? Servem para diversos propósitos em todas as culturas, para apoiar, dar sentido a realidade, divertir,instruir e unificam culturalmente uma nação,grupo ou raça.Os mitos como a língua, fazem parte do processo que distingue a existência de um povo.E Mário pegou um amontoado desses mitos e com indiscutível talento criou, estruturou seu personagem e sua trajetória dentro de um roteiro de ficção.
Certa vez, conversando com Plínio Marcos, perguntei sua opinião sobre a peça Peer Gynt,do norueguês Henrik Ibsen, que estava sendo encenado em São Paulo, na ocasião, com direção de Antunes Filho. Ele me fez uma afirmação que nunca esqueci sobre o personagem:“é o Macunaíma, lá deles”. A proximidade estrutural das criaturas principais das duas obras é evidente.Ibsen também reúne os mitos da Noruega e Peer Gynt realiza seu caminho entre gnomos, elfos e duendes e vários seres fantásticos. Peer Gynt também não possui nenhum caráter, vive diversas aventuras, na Noruega e no exterior, viaja entre os árabes, em determinando ponto da peça é saudado como imperador em um asilo de loucos e, em um outro, um homem estranho quer usar o seu corpo para saber onde nascem os sonhos... No final, já velho, Peer Gynt possui uma filosofia de vida onde sua moralidade ou seu caráter se apóia em seu Eu Gyntiano. Dizer que todos os noruegueses tem a mesma índole de Peer Gynt, é um absurdo.Tanto Macunaíma como Peer Gynt como qualquer pessoa ou personagem sem caráter é amoral e age de acordo com seus interesses e circunstâncias. Peer Gynt é uma obra excepcional. Uma bela obra de ficção, como a de Mário.
O acerto de Plínio Marcos é inegável.
Agora, qual é o valor ou o interesse de se discutir hoje, passado tanto tempo que Macunaíma foi escrita e já consta em nossos livros de história literária como fato consagrado?A razão é a questão do caráter e da índole e a realidade moral de nosso país, cuja análise não perde nunca a atualidade e está sempre em discussão e, é importante que assim seja. É através da correção desses erros que teremos talvez, a noção verdadeira da natureza de nosso etos, no sentido sociológico-antropológico que Mário de Andrade atribuiu ao seu personagem.
E o erro teórico de Mário foi grande.
Não é possível medir o caráter de um povo por suas lendas ou por seus mitos quando os parâmetros são de uma cultura examinando outra com instrumentação antecipadamente elaborada. Não há civilização brasileira, e nem uma consciência tradicional, não existe isso em sociedades em mutação ou mudança.. Uma civilização é um processo terminado, acabado e mesmo nesse termo classificatório é necessário estabelecer parâmetros, a civilização grega se divide em períodos como a civilização egípcia.E não se pode aplicar uma regra comum civilizatória a todos os períodos. A questão da consciência nacional é pior ainda.Se houvesse, por exemplo, uma consciência nacional francesa,ou uma civilização francesa, num país que tem mais mil anos como a França,os excluídos,os sem o primeiro emprego, não estariam ateando fogo no país como fizeram em 2005.Estariam preservado essa civilização francesa e a consciência nacional com todos os seus valores de caráter e moralidade. Besteira.
Enquanto a história da Noruega se perde no tempo, assim como seus mitos, os mesmos mitos que alimentam a obra de Mário também, são particulares e localizados. E de origem e tempo duvidosos.Adequá-las a uma realidade imediata é sempre um risco. Pode-se dizer que pertencem ao povo brasileiro como substrato de sua cultura,mas não formativo de seu caráter.Como exemplo, a lenda do Muiriquitã é da tribo míticas de mulheres do Amazonas(essas também conhecidas entre os mitos gregos), e assim como tantas outras que fazem parte da rapsódia de Mário.
As elites brasileiras e, quando me refiro elites não falo apenas das elites de poder, mas as elites culturais, têm um péssimo hábito, já histórico, de desprezar o povo que deu origem e mantém esse país. O caldo cultural que formava o Brasil na época de Mário era menor, índios, portugueses, negros e o italianos que já haviam enriquecido o país com o seu trabalho. Somaram-se depois, os japoneses, árabes, turcos, coreanos e atualmente são os bolivianos que trabalham como escravos nos porões de São Paulo.O Jeca Tatu, de Lobato, é o retrato de uma realidade agrária num país que só tinha dois produtos, cana de açúcar e café e que dava seus primeiros passos para industrialização, na década de 20 do século XX. Esse personagem de Lobato estava mais próximo do brasileiro pobre do interior do país do que o de Mário.
Quando falam mal do povo brasileiro, esquecem essas elites às lutas pela liberdade e os grandes sacrifícios e o sangue derramado que tem estruturado a nação.Mentirosos, é quase sempre atributo das elites de nossos país, o povo, no máximo, se defende, é reativo.
A generalização é perigosa. A partir da década de 60, com o golpe militar que se perpetuou por quase trinta anos,o país emburreceu mais.A inteligência foi atacada de forma sistemática pelos militares, Groucho Max dizia: “Inteligência militar são termos contraditórios”, universidades, arte,resistência tudo foi sistematicamente combatido em nome de revolução de mentiras e privilégios ainda maiores para a casta e seus apaniguados ligados ao poder. Consagrando a lei de levar vantagem sempre. E o que esses militares fizeram, também foi estimular exponencialmente a miséria, a exclusão social da maioria do povo. No intuito de aumentar a distância entre aqueles que combatiam de qualquer forma o status militar eles criaram a divisa: ame-me ou deixe- o, com o objetivo de confundir a noção de amor e respeito ao país ao respeito e amor a uma ditadura militar.Como se eles fossem a nação, donos da nação e homens do povo, e não um conjunto separado da sociedade, regido por normas próprias e distintas de toda ela.Funcionários públicos privilegiados, como até hoje são, homens que portam armas e que dispõe de privilégios diferenciados da maioria da população.
Nenhum governo é a nação.
Todo o governo é um conjunto de interesses e representa sempre uma parcela, nunca a totalidade de uma nação.
A lei, o direito, a estrutura social nunca está a favor dessa maioria. Foi esse povo, “preguiçoso” que sem ter a quem recorrer migrou do nordeste e continua erguendo com o seu trabalho São Paulo, entre outras cidades do país.É desse mesmo povo que deixou seu sangue nas batalhas que se espalham por nossa história. Nos 500 anos do Brasil, nunca houve um século, em que não houvesse guerras, lutas internas,quase sempre por liberdade. É esse povo que, ainda hoje, carrega pesos enormes nas costas para sustentar sua família e os seus, com honestidade do trabalho duro na chamada economia invisível, e continua sendo atacado pela forças da repressão, que defendem (em seu próprio beneficio) o imposto e os comerciantes legalmente estabelecidos.
E esse povo que continua suportando os erros dos economistas e líderes bem pensantes e bem sentados nos altos cargos da república. É este povo que ainda encontra forças para cantar “sou brasileiro com muito orgulho” nos poucos espaços que possui para manifestar a sua felicidade e alegria em habitar um terra tão diversa e tão bela como essa.E levar essa característica de preguiçosos e mentirosos para América Latina é continuar a cometer o mesmo crime de desrespeito a culturas diversas como que o foi cometido pelos “descobridores /conquistadores” com roubos, e assassinatos culturais, alguns irreparáveis.
Mario de Andrade acertou inúmeras vezes, mas nesse caso ele errou.É pretensão demais de um intelectual, um tanto megalomaníaco, capaz de achar que um personagem seu, seja capaz de representar a essência e a índole de toda uma nação.É preciso respeitar essa terra e suas criaturas, algumas ainda indefesas, cuja espécie e ou etnia existe a bem mais que 500 anos.É preciso dobrar a língua quando falar mal desse país e de seu povo, bem como sua história de sacrifício e coragem.O Brasil sempre foi e continua sendo um país mítico, é preciso, isso sim, manter vivos seus sonhos porque é aqui, com certeza, que os sonhos nasceram.(1) Português:Linguagens –William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães- Ed.Atual

1/02/2007

Jõ Soares e a literatura de banheiro

Jô Soares pergunta:conhece quadrinha de banheiro?Fiquei pasmo com a entrevista realizada por Jô Soares com Affonso Romano Santana no último dia 29-12-2006. A ânsia do apresentador em "alegrar" o público é tanta que ele entre outras besteiras pergunta ao escritor:conhece alguma quadrinha de banheiro? Ora, o sujeito vai lá promover seus livros de poesia, que possui espaço raro de divulgação no país, e pega um apresentador que nem entrevistador é, o sujeito é um blefe metido a engraçado e a escritor que é incapaz de tratar qualquer tema, muito menos literatura, com qualquer traço de seriedade e importância. A formato do talk show que ele faz está esgotado. O programa do David Letterman- de quem ele copiou o formato do programa consegue ser mais engraçado e inteligente além de critico.Coisa que o tal program do Jô já deixou de ser se algum dia já foi.