7/30/2020

Leia Capítulo do romance As Àguias Voam Sós



Na praia
Em um amplo quarto, fechado, com a luz acesa em plena tarde, sobre uma cama desfeita estão vários livros. No esplendor dos seus 21 anos, Adélia Weink, cabelos curtos, corpo moreno, perfeito, caminha nua pelo quarto, com uma mão segura uma maçã mordida e na outra um livro, que comenta em voz alta. Suando, parece um animal preso, enjaulado, rosto redondo, bonito, expressivo, decidido, estuda história e contra a vontade passa as férias com a família. Exigência materna e paterna, sob a ameaça de ter o dinheiro do final do mês suprimido.
Filha de fazendeiros tradicionais de Guaporé, Adélia, filha única do casal, não saíra exatamente como os pais desejavam, a começar pelo curso que escolhera. O pai queria que ela tivesse escolhido veterinária, assim, imaginava ele,ela encontraria um veterinário, casariam e iriam continuar a tradição da família voltada para criação de gado.
O verão era única oportunidade de estarem juntos. Depois que Adélia entrara na faculdade, começara a ter conflitos com a família e mantinha-se quase sempre que possível distante deles.
O verão transcorria para ela como um suplício. Enquanto as primas corriam de uma festa para outra, da praia para o colo dos namorados, ela fechada no quarto lia, estudava diversos autores. Agora devorava Regis Debray.
Leitura atormentada. Apressada. Interrompida por anotações, decisões. Discursos que fazia para si mesma, caminhando de um lado para outro .
- É preciso iniciar a luta armada, direta, sem escalas contra a burguesia e contra esse exército vassalo atrelado e subserviente ao imperialismo norte-americano. É preciso iniciar a luta armada. Vai ser esse ano,é necessário romper, vou romper com toda esta
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esquerda reformista.
Nos almoços com a família, que era quando saia do quarto e se permitia ter um mínimo convívio com a família Adélia não partilhava dos assuntos da mesa, achava-os banais demais, infantis. Enquanto falava-se no verão, nas parentes e amigas que haviam ficado noivas, ou quem andava com quem, ela procurava fazer a sua refeição o mais rápido que conseguia, levantava e sumia sem dar uma palavra.
A mãe no alto dos seus noventa quilos, olhando para ela e com um certo ar de piedade disse:
-Você está tão branca minha filhinha, porque não vais à praia?
-Tia, eu já cansei de convidar Adélia, mas parece que ela não gosta de sol. Gosta de ficar trancada no quarto, lendo -observou a prima com um acento de deboche na frase, insinuando que Adélia fazia coisas estranhas no quarto, além de ler.
-Imbecis - pensou Adélia - vocês ficam aí, comendo preocupando-se com a cor da pele, enquanto há uma guerra no país, uma guerra que não aparece nos jornais que estão censurados, quando não estão coniventes. Os porões da ditadura repletos de prisioneiros, companheiros e amigos desaparecidos. Se eu não tomar uma atitude, acabo assim, burguesinha decadente que nem vocês, preocupadas com a cor da pele e os namoradinhos. Por que será que as pessoas mais próximas a nós não percebem quem é a gente de verdade? Elas falam de mim sem saber que tenho um coração, que quase me salta da boca de tanta indignação....E querem saber de mais uma coisa:
- Querem saber de uma coisa?Chega! -explodiu, levantando da mesa num ímpeto e apontando para as duas primas que comiam como se estivessem numa escola de etiqueta -ninguém me obriga a ouvir mais essas idiotas, duas burguesinhas perfumadas, vazias e inúteis. Não entendo como alguém pode levar uma vida assim como vocês, completamente inúteis, uma vida vazia, sem propósito, preocupadas apenas com sua aparência de vacas enfeitadas.
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- Mas o que é isso minha filha? - perguntou a mãe assustada.
Todos na mesa paravam de comer.
-Essas duas cabeças ocas e vocês todos juntos, um bando de idiotas e tem mais uma coisa, vou arrumar as minhas malas e volto hoje para Porto Alegre, não fico mais nem um dia aqui! -afirmou, irritada, virou-se e saiu da mesa direto para o quarto disposta a ir embora o mais rápido possível.
Apesar do constrangimento criado por Adélia, na mesa, aos poucos o clima foi voltando ao normal, com as primas falando da roupa e do cabelo que sairiam à noite e a mãe lamentando que Adélia não fosse igual a elas, tão boazinhas, comportadas.
-Essa minha filha! Essa minha filha! Não me conformo. Pensei que nesse verão ela ficaria mais sossegada. Primeiro, foi aquele namorado, com aqueles cabelos enormes, um bigode que parecia de índio, estudante de botânica ou biologia, sei lá, metido a escritor, um vagabundo, agora política, política, como se tudo no mundo se resumisse a política.
-Calma, tiazinha, calma.
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Aqui surge um novo personagem sem rosto, Abram Sherman. Se o leitor quiser poderá ignorar o que ele diz sem prejuízo nenhum para o romance. Ele escreve:
Descendente de Adam Kadmon, percorri várias existências que confundem-se com o tempo, da mesma maneira que o planeta percorrer a sua órbita. Num círculo idêntico ao da serpente que devora a própria cauda, habitei países tão diversos como a Mesopotâmia e o Baixo Egito. Esqueci meus outros nomes, rostos, depois de beber a água do rio Lates. Fazendo de meu nome uma metáfora, início dizendo que tenho 30 anos neste corpo que ora habito, quando reencontrei o caminho que conduz a quem procura Aquele cujo nome é impronunciável. Poucos sabem da terrível importância deste reencontro, para os que não sabem e desejam procurar digo apenas, que lembrem-se de quem eram antes de serem o que são e que se resolverem seguir nesta viagem a porta estará lá, sempre, basta bater e ela se abrirá, indiferente ao tempo e às condições que vivam a humanidade”.
Abram Sherman

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