5/03/2007

Tenho medo é desses amarelos. A neo-literatura

Emanuel Medeiros Vieira propõe algumas questões simples ao presidente da República e que ele, com certeza, terá dificuldade em responder:
O senhor já leu um livro, neste ano?
O senhor já leu algum livro, no ano passado?
O senhor já leu algum livro, nos últimos dez anos?
O senhor já leu algum livro na vida?O senhor acha que literatura é algo importante?
"Emanuel, agora existe também uma nova praga, a neo-literatura. Leitura fácil e rápida, disfarçada de paradidática.
E, ele pode ter lido, afinal, o governo compra livros desse tipo, as toneladas, todo o ano.
Essas questões lembraram-me uma entrevista que demos para a TV Educativa, Paulo Markun, Nei Duclós e eu, em 2004, durante a Feira do Livro, em Porto Alegre.
Na ocasião, nós três promovíamos nossos livros.Nei, o seu romance Universo Baldio, eu, Poemas para Ler em Voz Alta e Paulo Markun, O Sapo e o Príncipe, onde ele, Markun, traçava um paralelo sobre as carreiras de Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva. Dois presidentes brasileiros oriundos da esquerda e que chegavam ao poder, um após o outro.
Apesar de não estar participando da entrevista como jornalista perguntei a Markun que tipo de repercussão o seu livro tivera junto aos biografados.
Ele respondeu que recebera os cumprimentos de Fernando Henrique e do Lula estava aguardando que a esposa, dona Marisa, lesse o livro para ele:-"Porque é ela quem lê”, -respondeu Markun, finalizando.
Seria cômico se não fosse trágico.
Dois presidentes que saem da esquerda e se atiram num projeto neo liberal sem escalas para governar o Brasil, afirmando que são sociais -democratas.
Um, o Sapo Barbudo (como o chamou, certa vez, Brizola) que não precisa e nunca precisou de leitura porque tem uma intuição do cão e uma percepção extra-sensorial para a oportunidade e o peleguismo, desde seus tempos de operário. "Flor estranha criada na estufa da ditadura” clamava, também Brizola, enquanto alguns outros líderes sindicais amanheceram com boca cheia de formiga ele prosperava, engordava o seu discurso e sobrevivia a tudo.
Alguém aí lembra de Manoel Fiel Filho? Preso em 1976, sob a acusação de pertencer ao PCB e que apareceu morto, enforcado em sua cela, poucos dias depois da prisão.
E, em 1980, depois de um brilhante carreira como líder sindical, Lula lança um partido com uma bandeira vermelha, em plena Guerra Fria (e o Golbery no seu Geopolítica e o Poder, dando risada).
Suassuna em sua obra prima O Auto da Compadecida, botava na boca do cangaceiro Severino, o que ele pensava sobre João Grilo:“-Tenho medo é desses amarelos!”
Essa gente amarela, que vem do nordeste, capaz de sobreviver a qualquer coisa, não pela violência, nem pela leitura que não tem, nunca teve e até não tem nada contra, não ( é capaz até de ler um bom cordel) mas pela esperteza e sagacidade, capaz de meter medo em cangaceiro.
O outro presidente, é o príncipe, segundo identifica Markun em seu livro, Fernando Henrique. Enquanto o amarelo tem uma intuição do cão, esse tem uma formação do cão, com leitura, com vários doutorados honoris causa das mais importantes universidades do mundo.
E o país?
Bom, o país é discurso, é fazer o que todos os outros fizeram anteriormente.Transferência de recursos, etc, mas o importante não é o país e, vamos fazer uma fundação com meu nome...Afinal eu criei isso eu criei aquilo.
O plano real é plano com mais mães e pais que conheço. Tem o Ciro Gomes, o Itamar, tem o Rícupero, lembram dele? Que ganhou depois da genial jogada da parabólica como prêmio a embaixada em Lisboa.
E não vamos esquecer também o Fundo Monetário Internacional,verdadeiro progenitor de todos os planos econômicos anteriores e posteriores.Se não fosse assim Israel não teria realizado o mesmo plano de confisco de moeda, idêntico ao Collor, tal e qual.
Nada se inventa, tudo se copia.
Criou nada, princípe cara pálida.Obedeceu indistintamente a tudo e a todos...Nem se deu o trabalho de se definir politicamente depois de ter abandonado a esquerda, virou o quê? Social democrata? Mas o que é social democracia, afinal? Algo que faz acordo com os liberais?
Pra que se definir? Sem definições podemos fazer acordos á vontadeDeixa assim, melhor assim, ninguém entende nada mesmo..Economia, então.
Até 1990, ninguém no governo sabia o que era dívida pública.Isso eles afirmam num documentário feito pela TV Senado ou TV Câmera, onde os bem penteados ex-ministros Fernando Henrique, Bresser Pereira, e o hacker, ex-diretor do Banco Central, Gustavo Franco (esse Gustavo é um ET, era garoto quando assumiu a direção do principal Banco de uma das sete maiores economias do mundo, sem nenhum mérito aparente ou posterior-até agora não ganhou nenhum Nobel de economia- só posso atribuir o fato, a ele ter um padrinho maior que a mãe dele, nunca vi coisa igual no mundo) explicam o que houve em mais essa década perdida do país.
Só para lembrar:Os bancos privados vão incorporar ao seu patrimônio, até o final desse ano (2007) alguns bilhões de dólares que pertenciam aos poupadores e que foi literalmente surrupiado por um dos planos verão do senhor Bresser e et caterva.
Vejam os presidentes dos principais bancos centrais no mundo, cada um com cem anos de atividades e serviços prestados as suas nações e com 1200 pós-graduações.Aqui eles entregam a direção desse banco pra qualquer um, agora é a vez de um ex-gerente geral do Banco de Boston, bem falante, e que deu um lucro louco pra esse tal banco, aqui no Brasil, sabe como? Só aceitava como cliente do banco (quando era gerente do mesmo), salários confirmados acima de 5 mil reais, além de emprestar dinheiro ao governo que é onde os bancos fazem muito dinheiro, melhor que isso só fabricando dinheiro por conta própria. Entrevistei o homem quando ainda dirigia o tal banco norte-americano.
Vai ver se ele também não é um amarelinho.Mas voltando ao príncipe.
Ele sai do governo e sua missão é explicar, como o personagem de Lampesusa: “Fizemos tudo pra deixar tudo como está.Vem aí outro, com um discursinho mais à esquerda pra fazer a mesma coisa”.E vamos aproveitar e dar algumas palestras cobrando bem caro e fazendo graça pro diabo rir.Em país de cego.Ninguém pergunta nada.E, parece que agora, o partido do sapo e do príncipe são sociais democratas.Está na hora de começar a cobrar essas definições, de verdade, dessa gente.
Apesar de não teres dirigido a pergunta a mim, entro na conversa e respondo, Emanuel: leitura pra quê?O exemplo dos dois presidentes, é bem claro, um leu o suficiente pra procurar deixar seu nominho na história, mentindo que fez um plano real, uma pirâmide com vista pro nada e o outro, um amarelinho que escapou da fome, da pobreza, da exclusão, porque tem uma esposa que sabe ler.
Pra isso, serve a leitura e também pra distinguir essa gente.Pra apontar quem são uns e quem são outros.E pra que serve a cultura? Goering, já dizia: me falam em cultura e puxo um revólver!
Hoje não precisa nem puxar o revólver, a cultura está tão elitista e tão sem acesso a maioria da população como estava no Quatroccento ou na baixa idade média.
Cultura virou questão de muito dinheiro.Os livros para irem para as prateleiras de algumas livrarias, têm pagar mensalidade, senão nem passam pela porta.Nas livrarias de aeroporto, se não for auto-ajuda, eles não querem.
E as editoras?Essas, estão sendo adquiridas por multinacionais ou se tornando mega editoras que crescem vendendo milhões para as compras estatais de livros chamados didáticos e para-didáticos.Nesses últimos anos as editoras brasileiros descobriram um novo veio, reciclar autores como Machado de Assis.
Recentemente uma grande editora encomendou a vários autores nacionais textos sobre o personagem Bentinho, do Machado, com novos "enfoques", é claro
E quem vai comprar essa droga?O governo.E quem vai ler?Aparentemente os neo-leitores do primeiro e segundo grau.E quem paga essa nova neo-literatura?
Advinhem...O governo, com suas maravilhosas compras anuais e cujos critérios precisam ser urgentemente reavaliados.Basta tentar entrar no site de registro dessas compras pra ver que há alguma coisa estranha acontecendo por ali.Ninguém fala nada porque para o mercado livreiro está bom, e num país em que nem o presidente lê e, quando, havia um presidente leitor, ele também nunca deu importância ao livro, pra que alguém vai se preocupar com isso?E o dinheiro é de quem botar a mão primeiro.E pelo jeito está sobrando pra encher as prateleiras de bibliotecas que ninguém vai consultar.
Quanto aos amarelinhos, por favor, não confundam o que disse aqui com preconceito, afinal, Suassuna falou neles primeiro, e esse povo tem sobrevivido a essa raça de cobras criadas porque também é todo ele um pouco amarelinho e resiste a tudo.E, talvez, seja até por isso que votaram nele, até descobrirem que por baixo daquela barba ele já renegou a sua gente e mudou de cor há muito tempo, se é que algum dia teve alguma.

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