4/19/2005

Geração Mimeógrafo

Geração Mimeógrafo, Princípio Meio e Fim


A partir deste post começo a colocar partes do livro Geração Mimeógrafo,Princípio Meio e Fim, o texto que inicia é de Cláudio d’Almeida poeta, escritor/memorialista e autor da trilogia: A mão estendo ao vento;Pequenos pedaços de um tempo e Apenas quem sabe os silêncios.
Os três livros de Cláudio relatam vivências dele pelo mundo, nos últimos trinta anos e, em seu livro Apenas quem sabe os silêncios, ele fala da criação do evento denominado Duas Semanas Cinéticas de Arte(1), que junto com ele ajudei a organizar em Porto Alegre,em 1972 e que dentre as várias manifestações artísticas produziu a edição em mimeógrafo do hoje histórico Caderno de Contos e Poesias, com apenas um exemplar conhecido em posse do poeta Oliveira Silveira.
O Caderno de Contos e Poesias, foi uma antologia com textos de 21 autores, entre eles Caio Fernando de Abreu, Moacyr Scliar, Sérgius Gonzaga, entre outros.
Apesar do braço forte, a ditadura,na época., não conseguiu encontrar maneira de impedir a realização do evento.
Assim,o Caderno como a mostra de arte visuais, as apresentações de teatro, música e cinema,resultantes das Duas Semanas de Arte Cinéticas, além de refletir o que estava acontecendo na cultura em Porto Alegre,naquele momento, não sofreram censura e puderam ocorrer livremente.
No texto de Cláudio, capítulo primeiro do Apenas quem sabe os silêncios, também é possível sentir como era o clima de repressão que vivia o país naquele período..
Reproduzo abaixo o texto gentilmente cedido pelo autor.




Capítulo I

Arte e Bahia

“No ano de 1972, ou seja, trinta anos atrás, na falta de festas cívicas que permitissem um auto-elogio da ditadura militar, o governo inventou o sesquicentenário da independência. Era algo absurdo e inaceitável para os descontentes. Pretendiam uma bienal de arte e outros movimentos na área cultural, muito quieta na época, depois do AI –5, Caetano e Gil no exílio, etc.
Desde de uns dois ou três anos, individualmente ou em pequenos grupos, dentro da Universidade Federal do RS a inquietação cultural sobreviveu.
Resolvemos criar um grupo alternativo para manifestação e o encontro entre estas pessoas e grupos, sem a conciliação com o autoritarismo. Nenhum dinheiro, mas o espaço do centro Acadêmico da Engenharia o (o CEUE) e da Medicina (CASL), graças ao amigo Mário,(2). além do apoio do Diretório Central, onde Berenice(3), minha companheira era secretária geral.
De longas conversas entre Marco Celso Viola, a Berenice e eu próprio surgiram, as Duas semanas em um salão” . O nome derivou do livro “ Cinco semanas em um balão”, de Julio Verne,a idéia era ocupar o salão do CEUE, durante duas semanas , com exposição e desenhos e pinturas, apresentação de peças, filmes, debates, edição de caderno literário, música e atividade que envolvessem os visitantes.
Montamos o Movimento de Arte Cinética, uma aparente redundância, mas não tinha nada a ver com a escola deste nome, na realidade a intenção era mexer com as pessoas, fossem artistas ou não.Escrito nosso manifesto, partimos para os jornais e até entrevista na Rádio da Universidade...’

Ainda neste trecho do seu livro que relata a o surgimento do Caderno de Contos e Poesias,Cláudio,sai nas férias de julho e viaja a Salvador,ele diz entre outras coisas “o Viola ficou em Porto,dando continuidade a mostra”, descrevendo o clima da época em Salvador,ele observa: “ mas vigorava a lei seca nos bares, depois das oito da noite a repressão policial era intensa”.
No seu retorno:
“Os trabalhos de organização da mostra cultural prosseguiram. Os contatos com diversos setores de manifestação artística nos levaram a Editora Movimento, aos grupos do Movimento Negro (proibidos pela ditadura), ao Centro de Arte Dramática da UFRGS, gente que tentava fazer cinema e aos poetas daquela geração.As semanas de agosto passaram rápido, foram visitadas muitas pessoas e algumas surpresas. A loja Lemac nos forneceu muito papel e tinta tempera, utilizada para as manifestações do público, dentro das propostas do evento. O resultado foi surpreendente para nós”...
...O resto do tempo foi passado na datilografia dos contos e poesias que, mimeografados, deram, origem a uma publicação que distribuímos aos mais interessados.O Moacyr Scliar foi um dos novos da época.Também havia contos e poesias de nossa autoria.As pinturas e desenhos foram sendo preparadas para a exposição de duas semanas que ocupamos o salão do CEUE , mesmo local onde foram projetados filmes do Alpheu Godinho e Sérgio Silva....
Neste mesmo local ocorreram alguns debates sobre expressão artística.Apresentações de teatro e audições musicais foram na Medicina, entre elas do Celso Loureiro Chaves, hoje(4) diretor da Escola de Artes da UFRGS...

(1)Tanto a capa do Caderno quanto do cartaz da mostra são de autoria de Cláudio d’Almeida
( 2) Mario Duarte Silveira
(3)Berenice Mallmann,foi quem datilografou os textos e acompanhou todo o processo de edição do Caderno de Contos e Poesias no mimeógrafo a tinta do CEUE.
(4)O livro foi editado em dezembro de 2002

Um comentário:

Nei Duclós disse...

O primeiro livro mimeografado é de 1969 e chama-se Tombam os primeiros homens nos trigais (autores: Marco Celso Viola, Nei Duclós e Mariza Scopel). O segundo é do mesmo ano e chama-se Eu Digo (os tres autores anteriores e mais Roque Callage). Os outros vieram depois.Apesar disso, não somos da geração mimeógrafo, rótulo dado aos poetas do Rio e Sampa em 1976, muitos anos depois, portanto. Nem somos precursores. Somos únicos e chegamos antes. Quem quiser que estude.