Tenho por parte de mãe, uma bisavó negra ainda escrava quando casou com o inglês, meu bisavô (em cartório em São Gabriel) e, por parte de pai, um italiano que chegou no Rio Grande do Sul, antes da grande imigração de 1870 e casou com uma paraguaia.
Não tenho direito a cidadania italiana porque o sobrenome se perde numa família extremamente prolífica. Não tenho e nem quero a cidadania paraguaia, porque, no máximo o que vou conseguir é alguma isenção sobre produtos importados, se algum dia virar camelô, a inglesa, então, seria luxo demais. Muito menos, posso reivindicar a cidadania nagô, que possuo legitimamente, mesmo tendo olho azul, porque sei lá que região da África minha bisavó provém. E aí, me sobra a condição de ser brasileiro e cidadão do mundo. O que é uma condição difícil, mas não lamentável. Lamento, isso sim, quando deparo com o fato de que os mais cultos,ou aparentemente mais cultos, ou seja, aqueles que tem acesso à cultura em nosso país não sabem exatamente o que são e a que vieram.Ou não fazem questão de saber, ou então fazem questão de manter esse desconhecimento e divisões étnicas,separatistas, sociais ou culturais para dele usufruir alguma benesse ou ainda, para aumentar esses abismos e criar mais guetos entre homens, nações e raças.Lamento quando deparo como o fato de Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), através de sua editora ter uma coleção de livros editada por alguns, professores? que não sei se mal esclarecidos ou mal formados ou os dois, que dividiu autores (vários) do Rio Grande do Sul por algumas etnias formadoras do Estado. Nos livros editados pela universidade há textos de poetas,escritores,jornalistas, com os seguintes títulos: Nós, os afro-gaúchos; Nós, os gaúchos;Nós, os ítalo-gaúchos; Nós, os teuto-gaúchos. Estão a venda no site da Editora da Universidade www.ufrgs.br/editora/ Na lista de preços é mais fácil encontrá-los.Os organizadores destas antologias esqueceram que o Brasil, hoje, não é um Estado multinacional e sua formação racial em alguns casos é quase imprecisa. Falei em alguns casos, porque existem no país, ainda em uso entre as diversas nações indígenas quase 120 idiomas, mas mesmos essas nações apesar de possuírem seus estamentos, estão submetidos, acima de suas regras, a regras jurídicas legais e lingüísticas das quais fazem parte a configuração da nação que vivemos. Esqueceram esses, professores? as perseguições que sofreram os alemães no Rio Grande do Sul para integrarem-se? Será que esqueceram, também, no que conduziu essas separações étnicas antes e durante a segunda guerra mundial? A guerra em Ruanda entre as etnias tutsi e hutu que já matou mais de 1 milhão de pessoas -divisão étnica,essa, alimentada pelos colonizadores belgas; dos curdos, hoje, um povo sem pátria).E parece que a coleção parou nisso, por quê? Se continuasse, faltaram, imagino, títulos como: Nós, gaúchos-gauleses (que reuniriam os belgas e franceses), Nós, os gaúchos ingleses, Nós, os gaúchos espanhóis (que reuniriam os catalões e os bascos).Mas qual foi mesmo o critério de escolha para a seleção de material que consta nessas antolgias?Se o critério para escolha dos colaboradores na coleção foi pela ordem de descendência patrilinear eu poderia colaborar em apenas um dos livros.Se foi regional e patrilinear em dois livros e, se nenhum dos anteriores, poderia apresentar textos para três dos livros, pois sou pela minha ascendência: afro-gaúcho, gaúcho e ítalo-gaúcho e se mexer um pouco mais há um traço de basco.Acho interessante que nessa coleção tenham sido esquecidos, também os judeus-gaúchos e os árabes (nessa entrariam descendentes de palestinos/ turcos e todas outra etnias da qual faz parte o mundo árabe e que está presente no Rio Grande do Sul desde a sua formação, basta buscar em sociologia histórica Manoelito de Ornellas- Gaúchos e Beduínos, e na ficção Simões Lopes Neto-Lendas do Sul-A Salamanca do Jarau, cujo título já evidencia a ligação com a Espanha moura. Onde estão estes últimos?Incluídos nos gaúchos?Por quê?Suspeito que eles existam.Porque não tiveram também o seu livro, em separado, nesta linda coleção étnica?Será que faltou dinheiro para editar ou daria algum problema? Sugiro que na continuidade da coleção façam mais dois livros, além dos já citados, com os guaranis, Nós, os gaúchos tupi-guaranis, ou vamos esquecer a sua cultura e história para formação desse Estado, também? E outro, com o título:Nós,osgaúchosautosegregadosesegregadoresdaculturabrasileira.Agora vem a dúvida: Vamos pegar três exemplos, se vivos fossem no Rio Grande do Sul: Machado de Assis. Em qual dessas coletâneas o colocariam?Afro-brasileiro? E aquele negro Cruz e Souza; e aquele mulato genial Afonso de Lima Barreto, que comemora esse ano 125 anos de seu nascimento sem nenhuma grande festa (patrocinada por algum banco estatal-com direito a discursos de vários especialistas autonomeados em sua obra) e que disse: “nasci pobre, nasci mulato...Executei minha missão fui poeta!”.Não daria também mais um título:Nós,os gaúchos mulatos ?Ficamos então, no pior dos mundos.Aqueles que têm a obrigação de sinalizar, educar, mostrar, orientar, depreende-se por uma coleção dessas não terem a mínima noção do que é cultura, do que é importante em cultura, mesmo se tiveram publicado um milhão de livros antes desses.Na minha opinião, justificar por qualquer ângulo ou critério uma separação étnica para cultura é criar mais divisões e preconceitos. Tudo começa com a cultura e a educação, inclusive os preconceitos. Acredito que objetivo da editora de uma universidade seria trabalhar contra isso.Não vejo coleções com critérios étnicos,separatistas, semelhantes editadas por universidades brasileiras ou em outros países.Se houverem,por favor me avisem! Seleção de textos baseado na cor da pele de seus autores,sexo, origem familiar,localização geográfica, faixa etária,religião e profissão são restritivos e inservíveis para qualquer noção ou visão de cultura que se pretenda abrangente e importante, para não ser mais rigoroso e aprofundar as questões de racismo ou separatismo. Enquanto isso, a Universidade perde cada vez mais sua importância social e cultural com publicações como estas, realizada com dinheiro público que se prestam mais a dividir aquilo que deveria estar unido em torno de uma cultura verdadeiramente brasileira e universal.
4/17/2007
Conosco, Nei, a anatomia ficou Maicoviski
para Nei Duclós
Houve um tempo que era sempre verão
que o mundo cabia na nossa mão,
no bolso havia um mapa do céu,
cantávamos enlouquecidos a plenos pulmões, na janela,na porta, no meio da rua
para quem quisesse ouvir
sem se preocupar com a vida,
com a morte, com o tempo,
nada, nem ninguém ousava nos desafiar
ríamos de madrugada,
no focinho dos cães raivosos.
Recordo o medo e o silêncio imposto,
meu pai dizendo:
- filho, não escreve essa hora da noite,
o barulho da máquina, tem sempre alguém escutando. Mas não havia receio,
era sempre verão,
vivíamos em outro país
onde toda a geografia havido ficado louca,
éramos feitos só de poesia
e os que nos vigiavam não entendiam nosso canto
e nos olhavam desconfiados,
quando estenderam sua garras na nossa direção,
não conseguiram nos aprisionar em seu baú de ossos,
não havia armas e nem cadeia para nós,
a poesia era nossa mãe coragem,
ela nos alimentava com seu sangue e com seu suor,
e não tínhamos lágrimas,
pois cada vez que a vida nos batia, querendo nos acordar,
retrucávamos em verso ou prosa
e com um sorriso que todos nós tínhamos.
Hoje, percorrendo este labirinto de cartas, recortes, fotos e nomes esquecidos pelo caminho percebo que ela nunca nos abandonou e continua sendo verão,
toda a vida, a vida toda em nosso coração.
Houve um tempo que era sempre verão
que o mundo cabia na nossa mão,
no bolso havia um mapa do céu,
cantávamos enlouquecidos a plenos pulmões, na janela,na porta, no meio da rua
para quem quisesse ouvir
sem se preocupar com a vida,
com a morte, com o tempo,
nada, nem ninguém ousava nos desafiar
ríamos de madrugada,
no focinho dos cães raivosos.
Recordo o medo e o silêncio imposto,
meu pai dizendo:
- filho, não escreve essa hora da noite,
o barulho da máquina, tem sempre alguém escutando. Mas não havia receio,
era sempre verão,
vivíamos em outro país
onde toda a geografia havido ficado louca,
éramos feitos só de poesia
e os que nos vigiavam não entendiam nosso canto
e nos olhavam desconfiados,
quando estenderam sua garras na nossa direção,
não conseguiram nos aprisionar em seu baú de ossos,
não havia armas e nem cadeia para nós,
a poesia era nossa mãe coragem,
ela nos alimentava com seu sangue e com seu suor,
e não tínhamos lágrimas,
pois cada vez que a vida nos batia, querendo nos acordar,
retrucávamos em verso ou prosa
e com um sorriso que todos nós tínhamos.
Hoje, percorrendo este labirinto de cartas, recortes, fotos e nomes esquecidos pelo caminho percebo que ela nunca nos abandonou e continua sendo verão,
toda a vida, a vida toda em nosso coração.
1/22/2007
O imperador de um asilo de loucos e do lugar em que nascem os sonhos
Mário de Andrade errou.
Ao falar sobre a criação de Macunaíma o autor afirmou que não desejava inventar símbolos nem um personagem que representasse todos os brasileiros. No entanto, na medida que dava vida ao herói, (por suas desqualidades) de preguiçoso, mentiroso foi percebendo as inúmeras semelhanças entre ele e os brasileiros ou latino-americanos em geral, que são, segundo ele, povos sem nenhum caráter. Explicando, dizia Mário: “Com a palavra caráter não determino apenas a realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento da língua na História na andadura, tanto no bem como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional.” (1).
Macunaíma é uma obra ímpar na literatura brasileira pela formulação estética e temática. Mas é isso, e acaba aí.
A bobagem que o teórico Mário fez ao analisar seu personagem foi de não separar a ficção da realidade.O ponto de partida para a criação de Macunaíma é a obra do etnógrafo alemão Koch-Krunberg, que recolheu uma série de lendas dos índios taulipangues e arecunás, entre 1911 e 1913.São lendas, parte do arcabouço mítico de nações diferentes, etnias diversas, diferenciadas em usos e costumes.E para que servem os mitos e as lendas? Servem para diversos propósitos em todas as culturas, para apoiar, dar sentido a realidade, divertir,instruir e unificam culturalmente uma nação,grupo ou raça.Os mitos como a língua, fazem parte do processo que distingue a existência de um povo.E Mário pegou um amontoado desses mitos e com indiscutível talento criou, estruturou seu personagem e sua trajetória dentro de um roteiro de ficção.
Certa vez, conversando com Plínio Marcos, perguntei sua opinião sobre a peça Peer Gynt,do norueguês Henrik Ibsen, que estava sendo encenado em São Paulo, na ocasião, com direção de Antunes Filho. Ele me fez uma afirmação que nunca esqueci sobre o personagem:“é o Macunaíma, lá deles”. A proximidade estrutural das criaturas principais das duas obras é evidente.Ibsen também reúne os mitos da Noruega e Peer Gynt realiza seu caminho entre gnomos, elfos e duendes e vários seres fantásticos. Peer Gynt também não possui nenhum caráter, vive diversas aventuras, na Noruega e no exterior, viaja entre os árabes, em determinando ponto da peça é saudado como imperador em um asilo de loucos e, em um outro, um homem estranho quer usar o seu corpo para saber onde nascem os sonhos... No final, já velho, Peer Gynt possui uma filosofia de vida onde sua moralidade ou seu caráter se apóia em seu Eu Gyntiano. Dizer que todos os noruegueses tem a mesma índole de Peer Gynt, é um absurdo.Tanto Macunaíma como Peer Gynt como qualquer pessoa ou personagem sem caráter é amoral e age de acordo com seus interesses e circunstâncias. Peer Gynt é uma obra excepcional. Uma bela obra de ficção, como a de Mário.
O acerto de Plínio Marcos é inegável.
Agora, qual é o valor ou o interesse de se discutir hoje, passado tanto tempo que Macunaíma foi escrita e já consta em nossos livros de história literária como fato consagrado?A razão é a questão do caráter e da índole e a realidade moral de nosso país, cuja análise não perde nunca a atualidade e está sempre em discussão e, é importante que assim seja. É através da correção desses erros que teremos talvez, a noção verdadeira da natureza de nosso etos, no sentido sociológico-antropológico que Mário de Andrade atribuiu ao seu personagem.
E o erro teórico de Mário foi grande.
Não é possível medir o caráter de um povo por suas lendas ou por seus mitos quando os parâmetros são de uma cultura examinando outra com instrumentação antecipadamente elaborada. Não há civilização brasileira, e nem uma consciência tradicional, não existe isso em sociedades em mutação ou mudança.. Uma civilização é um processo terminado, acabado e mesmo nesse termo classificatório é necessário estabelecer parâmetros, a civilização grega se divide em períodos como a civilização egípcia.E não se pode aplicar uma regra comum civilizatória a todos os períodos. A questão da consciência nacional é pior ainda.Se houvesse, por exemplo, uma consciência nacional francesa,ou uma civilização francesa, num país que tem mais mil anos como a França,os excluídos,os sem o primeiro emprego, não estariam ateando fogo no país como fizeram em 2005.Estariam preservado essa civilização francesa e a consciência nacional com todos os seus valores de caráter e moralidade. Besteira.
Enquanto a história da Noruega se perde no tempo, assim como seus mitos, os mesmos mitos que alimentam a obra de Mário também, são particulares e localizados. E de origem e tempo duvidosos.Adequá-las a uma realidade imediata é sempre um risco. Pode-se dizer que pertencem ao povo brasileiro como substrato de sua cultura,mas não formativo de seu caráter.Como exemplo, a lenda do Muiriquitã é da tribo míticas de mulheres do Amazonas(essas também conhecidas entre os mitos gregos), e assim como tantas outras que fazem parte da rapsódia de Mário.
As elites brasileiras e, quando me refiro elites não falo apenas das elites de poder, mas as elites culturais, têm um péssimo hábito, já histórico, de desprezar o povo que deu origem e mantém esse país. O caldo cultural que formava o Brasil na época de Mário era menor, índios, portugueses, negros e o italianos que já haviam enriquecido o país com o seu trabalho. Somaram-se depois, os japoneses, árabes, turcos, coreanos e atualmente são os bolivianos que trabalham como escravos nos porões de São Paulo.O Jeca Tatu, de Lobato, é o retrato de uma realidade agrária num país que só tinha dois produtos, cana de açúcar e café e que dava seus primeiros passos para industrialização, na década de 20 do século XX. Esse personagem de Lobato estava mais próximo do brasileiro pobre do interior do país do que o de Mário.
Quando falam mal do povo brasileiro, esquecem essas elites às lutas pela liberdade e os grandes sacrifícios e o sangue derramado que tem estruturado a nação.Mentirosos, é quase sempre atributo das elites de nossos país, o povo, no máximo, se defende, é reativo.
A generalização é perigosa. A partir da década de 60, com o golpe militar que se perpetuou por quase trinta anos,o país emburreceu mais.A inteligência foi atacada de forma sistemática pelos militares, Groucho Max dizia: “Inteligência militar são termos contraditórios”, universidades, arte,resistência tudo foi sistematicamente combatido em nome de revolução de mentiras e privilégios ainda maiores para a casta e seus apaniguados ligados ao poder. Consagrando a lei de levar vantagem sempre. E o que esses militares fizeram, também foi estimular exponencialmente a miséria, a exclusão social da maioria do povo. No intuito de aumentar a distância entre aqueles que combatiam de qualquer forma o status militar eles criaram a divisa: ame-me ou deixe- o, com o objetivo de confundir a noção de amor e respeito ao país ao respeito e amor a uma ditadura militar.Como se eles fossem a nação, donos da nação e homens do povo, e não um conjunto separado da sociedade, regido por normas próprias e distintas de toda ela.Funcionários públicos privilegiados, como até hoje são, homens que portam armas e que dispõe de privilégios diferenciados da maioria da população.
Nenhum governo é a nação.
Todo o governo é um conjunto de interesses e representa sempre uma parcela, nunca a totalidade de uma nação.
A lei, o direito, a estrutura social nunca está a favor dessa maioria. Foi esse povo, “preguiçoso” que sem ter a quem recorrer migrou do nordeste e continua erguendo com o seu trabalho São Paulo, entre outras cidades do país.É desse mesmo povo que deixou seu sangue nas batalhas que se espalham por nossa história. Nos 500 anos do Brasil, nunca houve um século, em que não houvesse guerras, lutas internas,quase sempre por liberdade. É esse povo que, ainda hoje, carrega pesos enormes nas costas para sustentar sua família e os seus, com honestidade do trabalho duro na chamada economia invisível, e continua sendo atacado pela forças da repressão, que defendem (em seu próprio beneficio) o imposto e os comerciantes legalmente estabelecidos.
E esse povo que continua suportando os erros dos economistas e líderes bem pensantes e bem sentados nos altos cargos da república. É este povo que ainda encontra forças para cantar “sou brasileiro com muito orgulho” nos poucos espaços que possui para manifestar a sua felicidade e alegria em habitar um terra tão diversa e tão bela como essa.E levar essa característica de preguiçosos e mentirosos para América Latina é continuar a cometer o mesmo crime de desrespeito a culturas diversas como que o foi cometido pelos “descobridores /conquistadores” com roubos, e assassinatos culturais, alguns irreparáveis.
Mario de Andrade acertou inúmeras vezes, mas nesse caso ele errou.É pretensão demais de um intelectual, um tanto megalomaníaco, capaz de achar que um personagem seu, seja capaz de representar a essência e a índole de toda uma nação.É preciso respeitar essa terra e suas criaturas, algumas ainda indefesas, cuja espécie e ou etnia existe a bem mais que 500 anos.É preciso dobrar a língua quando falar mal desse país e de seu povo, bem como sua história de sacrifício e coragem.O Brasil sempre foi e continua sendo um país mítico, é preciso, isso sim, manter vivos seus sonhos porque é aqui, com certeza, que os sonhos nasceram.(1) Português:Linguagens –William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães- Ed.Atual
1/02/2007
Jõ Soares e a literatura de banheiro
Jô Soares pergunta:conhece quadrinha de banheiro?Fiquei pasmo com a entrevista realizada por Jô Soares com Affonso Romano Santana no último dia 29-12-2006. A ânsia do apresentador em "alegrar" o público é tanta que ele entre outras besteiras pergunta ao escritor:conhece alguma quadrinha de banheiro? Ora, o sujeito vai lá promover seus livros de poesia, que possui espaço raro de divulgação no país, e pega um apresentador que nem entrevistador é, o sujeito é um blefe metido a engraçado e a escritor que é incapaz de tratar qualquer tema, muito menos literatura, com qualquer traço de seriedade e importância. A formato do talk show que ele faz está esgotado. O programa do David Letterman- de quem ele copiou o formato do programa consegue ser mais engraçado e inteligente além de critico.Coisa que o tal program do Jô já deixou de ser se algum dia já foi.
11/18/2006
De que Barro Somos Feitos ?
O texto a seguir é do irmão de Emanuel Medeiros Vieira, contista premiado, natural de Santa Catarina que hoje reside em Brasília.
“De que barro somos feitos?”
Francisco Xavier Medeiros Vieira
A imagem ainda é nítida, apesar do tempo: Estou sentado sobre uma velha caixa de madeira, cruzando pedaços de barbantes coloridos. Como um rústico artesão, copio e invento modelos de cintas e suspensórios. Fiz várias peças, sempre com muito cuidado. Enquanto durasse o trabalho, mais nada existia no mundo. Cada “obra” concebida era como se fosse uma jóia encontrada, um segredo revelado.
Depois, de porta em porta, ia vender minhas “criações” pela vizinhança. Lembro as cores e os cheiros daqueles dias e lembro os preços do jogo: vinte e cinco cruzeiros. Não seriam réis? E recordo também que no meio desse meu trabalho, um dia, sem aviso, alguém me perguntou: “Tu sabes de que barro somos feitos?”. Eu, que já era crescido, não entendi a pergunta, nem me lembro de quem a fez, mas nunca a esqueci.
Eram bons tempos. Acreditava-se em Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa, na Cegonha e no “futuro da Pátria”. Tinha-se muito medo das bruxas, do comunismo e da formiga saúva – que iria destruir o Brasil. Morávamos na rua Blumenau, hoje Victor Konder, num casarão geminado, com porão e sótão cheios de mistério, principalmente quando soprava o vento Sul – que naquela época durava três dias. E se a noite tivesse lua cheia, mortos de medo e de encanto, íamos desvendar seus mistérios, embaixo da Figueira no Jardim Oliveira Belo. E ficávamos assim, olhos arregalados, atentos a cada sombra, sob o balançar das ramagens centenárias e fantasmagóricas.
Época do Marona, bedel da Academia de Comércio, companheiro das batidas de limão do Gato-Preto e dos bares das adjacências, do Curvina, do Manequinha, da Barca Quatro. Época em que A Gazeta, dos irmãos Callado, mal das pernas, inventou a história do MQ, contada em capítulos diários repletos de suspense, nos quais o personagem principal confessava um homicídio praticado, trinta anos atrás, na Agronômica.
José, nosso irmão mais velho, diretor de O Diário da Tarde, para não perder leitores, criou o assustador Capa Preta, “perigoso assaltante”, tornando ainda mais desertas as estreitas ruas da cidade. Os jornaleiros vendiam os exemplares de um e de outro a dois mil réis, quando seu preço era de quarenta centavos. Era também o tempo das paixões políticas.
No pós-guerra, a redemocratização trouxe várias agremiações partidárias – o PTB de Getúlio, o PSD do General Dutra, a UDN do Brigadeiro Eduardo Gomes, esta em oposição ferrenha que, na Ilha, nos agitados comícios, tinha por slogan o “água, leite, luz”, produtos escassos por aqui.
Então, em meio a esse cenário, numa manhã de sábado, Papai chegou da Maternidade Carlos Corrêa e, com ar grave, sentou-se à cabeceira da mesa para o café da manhã e anunciou: - Tive um sonho nesta noite, em que um Anjo me dizia que este é o último filho que Deus nos deu. Era 31 de março de 1945. Emanuel Tadeu desembarcara na Ilha, para alegria da numerosa clã dos Medeiros Vieira, numa casa acolhedora e barulhenta.
Era uma casa, mas parecia um teatro. Ou seria um circo? Tinha “A Volta ao Ninho Antigo” contado pelo José todas as noites, antes que o sono nos alcançasse; tinha também os jornais manuscritos, as declamações, o cinema com lençol estendido, os discursos, os piqueniques. Era uma época em que havia diálogo, em que existia tempo para as coisas essenciais, época sem TV, época literária.
E tinha o Natal, a data mais esperada do ano. E como demorava... Ganhávamos, era regra geral, roupa nova e um tênis branco, de lona, que durava o ano inteiro. Ainda sinto o cheirinho deles. Um tambor, um carrinho, um caminhãozinho, bonecas para as meninas, uma bola, era uma alegria imensa. Todas as noites, depois da festa, por um mês, eu colocava os presentes ganhos junto à cabeceira da cama, para, ao acordar, sentir a sensação daquela noite festiva. Lembro-me, de maneira especial de um bondinho vermelho.
Não esqueço da felicidade de Emanuel quando o presenteei com uma linda bicicleta, com todos os acessórios, comprada a prestações numa loja da Rua Deodoro, cujo proprietário depois passou a vender carros DKW-VEMAG... As férias de verão em Porto Belo, os estudos ao clarear o dia na Chácara, a matéria decorada (Emanuel chegou depois), as viagens de inspeção do Papai, os piqueniques freqüentes. Vivíamos, sem dúvida, uma infância e uma adolescência feliz, apesar do autoritarismo, comum à época, que presidia a educação.
E a base da nossa educação – além, claro, dos valores éticos – foi o amor à cultura. Amor aos livros e às boas histórias. Tínhamos, todos, por esse ambiente em que vivíamos, fome de mundo, que é fome de conhecimento. O espaço mais importante e mágico da casa era a biblioteca. Foi ali que Emanuel cresceu, devorando toda a Coleção Saraiva, que eu assinava e que dei a ele. Lia sem parar, com urgência, como uma necessidade física e espiritual. Leu todos os livros de Emílio Salgari, do Karl May, além dos autores que o iriam marcar para sempre: Machado, Dostoievski, Kafka e Camus.
A paixão pelos livros estimulou ainda mais seu desejo de caminho. E lá foi ele, pelas estradas secundárias, completar os estudos em Porto Alegre. Aficionado pelo cinema e pela literatura, tornou-se contista. Bacharelou-se em Direito, mas nunca advogou. A burocracia, os formalismos, as poses não lhe agradam nunca. Depois, por necessidade, mas não por vocação, tornou-se assessor parlamentar, na Assembléia Legislativa de Santa Catarina e, posteriormente, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Mas a verdade é que o poder nunca o seduziu. Não é essa a sua estrada porque Emanuel nasceu poeta.
Um poeta no sentido mais bonito do termo. Alguém que se entrega à vida e à literatura de maneira inteira, visceral, verdadeira. Tanto nos contos quanto nas novelas, nos ensaios ou nos poemas, Emanuel vive as palavras de Paul Auster: "um escritor só pode ser bom se tiver a honestidade de ir ao fundo, ao céu, ao inferno, doa a quem doer." Ele foi fundo, vivendo como escreve – numa coerência intransigente. Qualidade, como se sabe, tão rara quanto bela. Seus textos são apaixonados, têm verve, têm dor profunda, têm uma vida imensa que transborda e que faz vento por onde passa. Não há ninguém que fique indiferente aos seus contos e seus poemas. E isso desde o seu primeiro livro, Expiação de Jerusa, de 1972. E foi lá, no comecinho de tudo, que os textos de Emanuel chamaram atenção de um mineiro, também poeta, chamado Carlos Drummond de Andrade. E vieram muitos prêmios e muitos outros admiradores e leitores fiéis.
Emanuel consegue transformar seus demônios e deuses mais profundos em arte. Não fez da literatura, como tantos, um instrumento para destilar mágoas ou rancores. Mas uma arte que transforma e purifica. E acho que foi assim que ele conseguiu manter a ternura invicta, apesar dos pesares. Durante a famigerada ditadura militar, por rejeitar a brutalidade e a censura, pela ousadia de desafiar o silêncio, foi perseguido, preso e torturado. Foi um entre tantos jovens da sua geração a pagar um preço altíssimo pela sua coerência ética e pela sua coragem. Mas sobreviveu e manteve-se de pé, sem abandonar jamais suas crenças num outro mundo mais justo e mais humano. O que não é pouco, a contar tantos “arrependidos” que andam por aí.
Ele carrega o que de melhor nos deu aqueles tumultuados anos 60: utopia, idealismo, poesia. Paixão. Tudo isso permanece e não é apenas matéria de memória. Foi olhando para essa época, a revendo hoje, sem ingenuidade, que ele tirou as histórias de "Os hippies envelhecidos", livro que recebeu o “Prêmio Othon Gama D’Eça - 2002”, concedido pela Academia Catarinense de Letras ao melhor livro do ano. Foi com os olhos e o espírito daquela década que ele escreveu o também premiado No Altiplano: Contemplando o Comandante Ernesto, livro sobre o Che. Há algo que os une profundamente: Tanto Che como Emanuel têm essa estranha “teimosia” de não aceitar a injustiça como fato natural, seja com quem for e aonde for. Emanuel também me lembra um pouco um outro símbolo daqueles anos: o cineasta Glauber Rocha. Como Emanuel, Glauber tinha essa urgência de vida, a consciência da finitude, a sensibilidade, a necessidade de estar sempre em movimento, produzindo, criando. Não é por acaso que sua casa espiritual é a Bahia. Emanuel é feito daquela terra.
É feito do tempo. Do seu tempo. Como escreveu Nelson Hoffmann: “Toda a obra de Emanuel Medeiros Vieira acompanha o tempo, registra as mudanças, testemunha. Não registra como quem faz um inventário, toma nota, aponta. Não. Emanuel faz a leitura do tempo, do tempo em que está inserido. Faz essa leitura, lendo-se a si mesmo. Lendo-se a si mesmo, no que tem de essencial, lê-se como ser humano universal”.
Emanuel cria e vive, como um velho artesão. Sentado em frente a sua velha máquina de escrever (agora, enfim, um computador), concentrado e em silêncio, ele vai tecendo histórias. Conta, encanta e comove porque escreve com os poros, se mostrando com toda a força e fragilidade. Nele, como diria Maiakovski, “a natureza enlouqueceu e ele é todo, todo coração”. É todo humanidade. Num dos seus mais recentes poemas, Adeus Grécia, Emanuel faz a mesma pergunta que ouvi há quase 70 anos: “De que barro somos feitos?”. Com ele, aprendi que somos feitos de compaixão e de memória.
Francisco Xavier Medeiros Vieira
A imagem ainda é nítida, apesar do tempo: Estou sentado sobre uma velha caixa de madeira, cruzando pedaços de barbantes coloridos. Como um rústico artesão, copio e invento modelos de cintas e suspensórios. Fiz várias peças, sempre com muito cuidado. Enquanto durasse o trabalho, mais nada existia no mundo. Cada “obra” concebida era como se fosse uma jóia encontrada, um segredo revelado.
Depois, de porta em porta, ia vender minhas “criações” pela vizinhança. Lembro as cores e os cheiros daqueles dias e lembro os preços do jogo: vinte e cinco cruzeiros. Não seriam réis? E recordo também que no meio desse meu trabalho, um dia, sem aviso, alguém me perguntou: “Tu sabes de que barro somos feitos?”. Eu, que já era crescido, não entendi a pergunta, nem me lembro de quem a fez, mas nunca a esqueci.
Eram bons tempos. Acreditava-se em Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa, na Cegonha e no “futuro da Pátria”. Tinha-se muito medo das bruxas, do comunismo e da formiga saúva – que iria destruir o Brasil. Morávamos na rua Blumenau, hoje Victor Konder, num casarão geminado, com porão e sótão cheios de mistério, principalmente quando soprava o vento Sul – que naquela época durava três dias. E se a noite tivesse lua cheia, mortos de medo e de encanto, íamos desvendar seus mistérios, embaixo da Figueira no Jardim Oliveira Belo. E ficávamos assim, olhos arregalados, atentos a cada sombra, sob o balançar das ramagens centenárias e fantasmagóricas.
Época do Marona, bedel da Academia de Comércio, companheiro das batidas de limão do Gato-Preto e dos bares das adjacências, do Curvina, do Manequinha, da Barca Quatro. Época em que A Gazeta, dos irmãos Callado, mal das pernas, inventou a história do MQ, contada em capítulos diários repletos de suspense, nos quais o personagem principal confessava um homicídio praticado, trinta anos atrás, na Agronômica.
José, nosso irmão mais velho, diretor de O Diário da Tarde, para não perder leitores, criou o assustador Capa Preta, “perigoso assaltante”, tornando ainda mais desertas as estreitas ruas da cidade. Os jornaleiros vendiam os exemplares de um e de outro a dois mil réis, quando seu preço era de quarenta centavos. Era também o tempo das paixões políticas.
No pós-guerra, a redemocratização trouxe várias agremiações partidárias – o PTB de Getúlio, o PSD do General Dutra, a UDN do Brigadeiro Eduardo Gomes, esta em oposição ferrenha que, na Ilha, nos agitados comícios, tinha por slogan o “água, leite, luz”, produtos escassos por aqui.
Então, em meio a esse cenário, numa manhã de sábado, Papai chegou da Maternidade Carlos Corrêa e, com ar grave, sentou-se à cabeceira da mesa para o café da manhã e anunciou: - Tive um sonho nesta noite, em que um Anjo me dizia que este é o último filho que Deus nos deu. Era 31 de março de 1945. Emanuel Tadeu desembarcara na Ilha, para alegria da numerosa clã dos Medeiros Vieira, numa casa acolhedora e barulhenta.
Era uma casa, mas parecia um teatro. Ou seria um circo? Tinha “A Volta ao Ninho Antigo” contado pelo José todas as noites, antes que o sono nos alcançasse; tinha também os jornais manuscritos, as declamações, o cinema com lençol estendido, os discursos, os piqueniques. Era uma época em que havia diálogo, em que existia tempo para as coisas essenciais, época sem TV, época literária.
E tinha o Natal, a data mais esperada do ano. E como demorava... Ganhávamos, era regra geral, roupa nova e um tênis branco, de lona, que durava o ano inteiro. Ainda sinto o cheirinho deles. Um tambor, um carrinho, um caminhãozinho, bonecas para as meninas, uma bola, era uma alegria imensa. Todas as noites, depois da festa, por um mês, eu colocava os presentes ganhos junto à cabeceira da cama, para, ao acordar, sentir a sensação daquela noite festiva. Lembro-me, de maneira especial de um bondinho vermelho.
Não esqueço da felicidade de Emanuel quando o presenteei com uma linda bicicleta, com todos os acessórios, comprada a prestações numa loja da Rua Deodoro, cujo proprietário depois passou a vender carros DKW-VEMAG... As férias de verão em Porto Belo, os estudos ao clarear o dia na Chácara, a matéria decorada (Emanuel chegou depois), as viagens de inspeção do Papai, os piqueniques freqüentes. Vivíamos, sem dúvida, uma infância e uma adolescência feliz, apesar do autoritarismo, comum à época, que presidia a educação.
E a base da nossa educação – além, claro, dos valores éticos – foi o amor à cultura. Amor aos livros e às boas histórias. Tínhamos, todos, por esse ambiente em que vivíamos, fome de mundo, que é fome de conhecimento. O espaço mais importante e mágico da casa era a biblioteca. Foi ali que Emanuel cresceu, devorando toda a Coleção Saraiva, que eu assinava e que dei a ele. Lia sem parar, com urgência, como uma necessidade física e espiritual. Leu todos os livros de Emílio Salgari, do Karl May, além dos autores que o iriam marcar para sempre: Machado, Dostoievski, Kafka e Camus.
A paixão pelos livros estimulou ainda mais seu desejo de caminho. E lá foi ele, pelas estradas secundárias, completar os estudos em Porto Alegre. Aficionado pelo cinema e pela literatura, tornou-se contista. Bacharelou-se em Direito, mas nunca advogou. A burocracia, os formalismos, as poses não lhe agradam nunca. Depois, por necessidade, mas não por vocação, tornou-se assessor parlamentar, na Assembléia Legislativa de Santa Catarina e, posteriormente, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Mas a verdade é que o poder nunca o seduziu. Não é essa a sua estrada porque Emanuel nasceu poeta.
Um poeta no sentido mais bonito do termo. Alguém que se entrega à vida e à literatura de maneira inteira, visceral, verdadeira. Tanto nos contos quanto nas novelas, nos ensaios ou nos poemas, Emanuel vive as palavras de Paul Auster: "um escritor só pode ser bom se tiver a honestidade de ir ao fundo, ao céu, ao inferno, doa a quem doer." Ele foi fundo, vivendo como escreve – numa coerência intransigente. Qualidade, como se sabe, tão rara quanto bela. Seus textos são apaixonados, têm verve, têm dor profunda, têm uma vida imensa que transborda e que faz vento por onde passa. Não há ninguém que fique indiferente aos seus contos e seus poemas. E isso desde o seu primeiro livro, Expiação de Jerusa, de 1972. E foi lá, no comecinho de tudo, que os textos de Emanuel chamaram atenção de um mineiro, também poeta, chamado Carlos Drummond de Andrade. E vieram muitos prêmios e muitos outros admiradores e leitores fiéis.
Emanuel consegue transformar seus demônios e deuses mais profundos em arte. Não fez da literatura, como tantos, um instrumento para destilar mágoas ou rancores. Mas uma arte que transforma e purifica. E acho que foi assim que ele conseguiu manter a ternura invicta, apesar dos pesares. Durante a famigerada ditadura militar, por rejeitar a brutalidade e a censura, pela ousadia de desafiar o silêncio, foi perseguido, preso e torturado. Foi um entre tantos jovens da sua geração a pagar um preço altíssimo pela sua coerência ética e pela sua coragem. Mas sobreviveu e manteve-se de pé, sem abandonar jamais suas crenças num outro mundo mais justo e mais humano. O que não é pouco, a contar tantos “arrependidos” que andam por aí.
Ele carrega o que de melhor nos deu aqueles tumultuados anos 60: utopia, idealismo, poesia. Paixão. Tudo isso permanece e não é apenas matéria de memória. Foi olhando para essa época, a revendo hoje, sem ingenuidade, que ele tirou as histórias de "Os hippies envelhecidos", livro que recebeu o “Prêmio Othon Gama D’Eça - 2002”, concedido pela Academia Catarinense de Letras ao melhor livro do ano. Foi com os olhos e o espírito daquela década que ele escreveu o também premiado No Altiplano: Contemplando o Comandante Ernesto, livro sobre o Che. Há algo que os une profundamente: Tanto Che como Emanuel têm essa estranha “teimosia” de não aceitar a injustiça como fato natural, seja com quem for e aonde for. Emanuel também me lembra um pouco um outro símbolo daqueles anos: o cineasta Glauber Rocha. Como Emanuel, Glauber tinha essa urgência de vida, a consciência da finitude, a sensibilidade, a necessidade de estar sempre em movimento, produzindo, criando. Não é por acaso que sua casa espiritual é a Bahia. Emanuel é feito daquela terra.
É feito do tempo. Do seu tempo. Como escreveu Nelson Hoffmann: “Toda a obra de Emanuel Medeiros Vieira acompanha o tempo, registra as mudanças, testemunha. Não registra como quem faz um inventário, toma nota, aponta. Não. Emanuel faz a leitura do tempo, do tempo em que está inserido. Faz essa leitura, lendo-se a si mesmo. Lendo-se a si mesmo, no que tem de essencial, lê-se como ser humano universal”.
Emanuel cria e vive, como um velho artesão. Sentado em frente a sua velha máquina de escrever (agora, enfim, um computador), concentrado e em silêncio, ele vai tecendo histórias. Conta, encanta e comove porque escreve com os poros, se mostrando com toda a força e fragilidade. Nele, como diria Maiakovski, “a natureza enlouqueceu e ele é todo, todo coração”. É todo humanidade. Num dos seus mais recentes poemas, Adeus Grécia, Emanuel faz a mesma pergunta que ouvi há quase 70 anos: “De que barro somos feitos?”. Com ele, aprendi que somos feitos de compaixão e de memória.
10/31/2006
Três autógrafos em Porto Alegre- na Feira do Livro
Foi um sucesso o lançamento dos livros O Refúgio do Príncipe de Nei Duclós, Para Tarsila de Aline Isaia e o meu Viver a Paixão de Cada Passo, na Feira do Livro de Porto Alegre. O meu livro e da Aline fazem parte da coleção Palavra e Arte da editora Alegoria-www.alegoriaeditora.com.br o do Nei é da editora Cartaz de Santa Catarina.Os livros da coleção Palavra e Arte podem ser encontrados no site da editora ou da Livraria Cultura.
10/14/2006
8/30/2006
Vida Doida- de Adélia Prado
Já pode ser encontrado na Livraria Cultura o livro Vida Doida de Adélia Prado.Um dos seis livros da coleção Palavra e Arte da Editora Alegoria, de Porto Alegre. Fazem parte da Coleção:O Homem e Sua Sombra de Affonso Romano de Sant'Anna,Para Tarsila de Aline Isaia, Frases de Tomé aos Três Anos de Arnaldo Antunes,Estações de Gabriel Chalita e Viver a Paixão de Cada Passo de Marco Celso Huffell Viola.
1/09/2006
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